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A importância da educação e do ensino da física na sociedade

por: Elisabethe Chaves

Professor Rodrigo Ribeiro em laboratório de física do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia cercado por experimentos. Foto: Elisabethe Chaves

 

É inegável a importância que o campo de estudo da física tem na sociedade. Grandes avanços históricos e tecnológicos só foram possíveis graças à expansão de pesquisas científicas. Dessa forma, é importante entender que essa matéria acadêmica engloba o estudo das ciências da natureza e procura explicar seus fenômenos. Sendo assim, convidamos o professor emérito do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia (IFBA), Rodrigo Ribeiro — graduado em Física pela faculdade de Uberlândia —, que leciona a matéria de física para o ensino superior da universidade federal nos cursos de Engenharia — Civil, Elétrica e Ambiental — e de Química, além de também lecionar para os alunos do ensino integrado, ou seja, ensino médio em conjunto com o ensino técnico. Para desse modo entender os desafios em integrar esse estudo na sociedade de forma a transformar a visão dos alunos

 

EXTRA!Ordinário: A primeira coisa a se perguntar é o básico. Por que professor? E por que professor de física?

Rodrigo Ribeiro: Vou te dizer que a resposta é bem mais difícil do que a pergunta. Eu nunca tinha pensado em fazer física, sempre gostei, sempre achei muito interessante. Mas eu pensava de uma forma mais prática, pensava em engenharia. Eu fiz vestibular, meu primeiro vestibular foi para engenharia elétrica, não passei. (…) Então eu comecei a fazer cursinho e no meio desse caminho, um colega meu de cursinho virou pra mim e ele falava “pô cara, cê explica bem, cê já pensou em fazer física?” Eu falava “Não, física é coisa de doido. “. (…) Mas eu fiquei com isso na cabeça. Falei com meu professor do cursinho na época, eu perguntei pra ele como era o curso de física. (…) Ele já dava aulas, mas ainda estava se graduando. Ele me falou “Oh, eu vou te fazer um convite, eu vou ter uma aula essa semana e queria que você fosse assistir a aula com esse professor”. Eu morava perto da faculdade e fui lá para assistir a aula desse professor a noite. (…) Era um professor fantástico, a aula dele era realmente maravilhosa, era uma aula de disciplina do sétimo semestre, era bem avançado, foi uma aula que eu nunca esqueci, era uma aula de eletromagnetismo. (…) Eu nunca tinha pensado em ser professor na minha vida. E ele me disse “Oh, você pode começar o curso de licenciatura e depois migrar para o bacharelado”. Ele me convenceu e só depois eu descobri que ele foi um dos fundadores do curso. Ele foi minha referência, enquanto professor e enquanto pessoa. Ele despertou o meu interesse na licenciatura…

 

EXTRA!Ordinário: Agora que já trabalha na área de educação, o senhor acha que consegue incentivar os alunos da mesma forma que o senhor foi incentivado?

Rodrigo Ribeiro: Eu acho que é um processo complexo, eu diria que talvez hoje eu me sinta mais realizado e mais feliz na profissão e isso faz com que o trabalho seja realizado de forma que o aluno também perceba isso. (…) Nos cursos integrados, às vezes é um pouco difícil, porque é um aluno de ensino médio que vê uma infinidade de disciplinas, das quais algumas ele tem afinidade e outras nem tanto, ele se sente meio que obrigado a ter que assistir aquela aula e passar naquela matéria. (…) Quando a gente encontra algum aluno que gosta da área a gente consegue despertar nele de um jeito mais fácil do que aqueles que já tem aversão, esses são os maiores desafios. Gosto de trabalhar com a física com alunos do primeiro ano justamente para tentar romper essa barreira, quebrar um pouco o preconceito. (…) Nos cursos de engenharia talvez já seja um pouco mais fácil conseguir isso, porque são alunos que escolheram fazer um curso de exatas, então já tem uma certa afinidade. (…) Eu fico feliz quando muitos alunos chegam pra mim e falam “Ah, professor, eu tinha dificuldade em física, mas gostei muito mesmo da aula do senhor, porque o senhor fala de uma forma tão simples…”. E isso pra mim é uma realização, pensar que, poxa, eu estou conseguindo alcançar alguma coisa e fazendo o mais difícil, que é despertar esse interesse…

 

EXTRA!Ordinário: Dentro desse contexto do ensino integrado, como o senhor falou que gosta de trabalhar com alunos do primeiro ano. De que forma o senhor acha que o ensino básico (fundamental) cria esses bloqueios?

Rodrigo Ribeiro: A gente tem uma cultura de dizer que física é coisa de maluco e não é, é uma ciência como todas as outras, que estuda a natureza e muitas pessoas pensam que “Ah, mas a física é cheia de fórmulas matemáticas” e é isso que eu falo para os meus alunos “Não, a física não é cheia de fórmulas, ela é cheia de conceitos, teorias e leis da natureza. Elas foram descobertas, compreendidas e escritas, a natureza é assim. A gente recorre a matemática justamente porque as leis da natureza são muito exatas e ela é uma ferramenta para entender isso”. (…) A física não é apenas o cálculo, é isso que eu tento passar para os meus alunos. (…) Normalmente esses alunos já ingressam no primeiro ano depois de ouvirem falar na escola que a física é muito difícil, e aí a criança que já tem uma dificuldade matemática cria um bloqueio antes mesmo de conhecer o que é a matéria…

 

EXTRA!Ordinário: Sabemos que há uma crescente desvalorização do ensino, dessa forma fica cada vez mais difícil salientar a importância da educação e das universidades para a população. Devido a essas questões, qual alternativa o senhor acha que pode ser seguida para atrair o público externo para ingressar nas universidades?

Rodrigo Ribeiro: Para muitas pessoas a universidade é algo inatingível. Muitas pessoas vêem a faculdade, seja na universidade pública ou privada, dessa forma. Às vezes a privada é por uma questão financeira também. (…) É que a gente vive em um país onde a necessidade de trabalho começa muito cedo para muitas pessoas, essa é uma realidade. (…) Então elas deixam a escola porque precisam trabalhar para ajudar a família. Então pensar em universidade é algo muito fora da realidade. É claro que é o que a gente almeja, que os alunos tenham a oportunidade de só estudar e poder fazer uma escolha profissional consciente. (…) O mais difícil é que essa realidade seja alcançada por todos…

 

EXTRA!Ordinário: Como um professor, o senhor acha que é muito comum ver alunos que já ingressaram na universidade e estão frustrados ou decepcionados porque não estavam cientes do que iriam lidar?

Rodrigo Ribeiro: É, é uma realidade. E nesse momento em que estamos vivendo agora após a parte mais crítica da pandemia, a gente tem uma realidade de alunos que ingressaram na universidade e passaram por um período de aulas remotas que foi um processo de aprendizado muito difícil, até porque a metodologia de um curso a distância tem um projeto de curso totalmente diferente do que a gente fez. (…) Então nesse momento de retorno presencial eu percebi muitos alunos com dificuldade para retomar um ritmo de estudos e de aulas presenciais. (…) Também acho que o mais difícil é começar o curso já sabendo o que fazer. Muitas vezes a pessoa faz um processo seletivo, vestibular ou Enem, e ingressa numa faculdade — talvez porque aquela foi a mais fácil, pela nota e tudo mais … — e não sabe o que ali tem para oferecer, aí ele começa o curso e percebe “poxa, não é isso que eu queria”…

 

EXTRA!Ordinário: O senhor se sente realizado por ter feito essa escolha de ser professor de física?

Rodrigo Ribeiro: Bastante! É uma profissão muito desafiadora. (…) Normalmente quando uma pessoa escolhe ser professor falam “Êh! Coitado!”. É porque a gente se depara com muitas realidades, cada aluno é uma realidade. (…) Hoje eu trabalho quase no final dessa cadeia do processo de educação, são os alunos que chegam para os cursos de ensino médio e ensino superior. E se a base não for boa, esses alunos não vão chegar até aqui bem preparados, nem muito bem motivados e acho que parte dessa motivação dos alunos depende também da motivação dos outros profissionais que estão ali, da estrutura das escolas. Então é uma profissão em que me sinto realizado sim, é muito desafiadora, passei por momentos difíceis, mas tive muitas pessoas que me incentivaram. (…) Agora tem outros professores na minha família. (…) Busco trazer isso também para o meu filho! (…) É simplesmente pela educação que a gente consegue trazer mudanças sólidas para uma sociedade.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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