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As dificuldades enfrentadas por um artista plástico independente

por: Driele Braga e Juliana Reis


Capim em seu ateliê localizado na Rua Q, 626A, Bairro Felícia em Vitória da Conquista/BA. Foto: Driele Braga

 

Capim, como gosta de ser chamado, é o nome artístico de Israel Lima de 26 anos, um artista plástico independente há sete anos que produz obras pautadas na ancestralidade africana. Nascido em Orós, interior do Ceará, filho de semianalfabetos e com pouco contato com a arte, Capim se mudou para Vitória da Conquista na Bahia logo na infância, lugar em que vive até hoje. Ele traz o relato pessoal das dificuldades enfrentadas e ressalta a desvalorização da classe artística. Seu ateliê fica localizado na rua Q, 626A, no bairro Felícia e a principal ferramenta de exposição dos seus trabalhos é o Instagram.

 

EXTRA!Ordinário: De onde surgiu o interesse pela arte, em particular a pintura, e como se deu esse processo inicial?

Capim: O interesse pela arte é algo que surgiu da forma mais inocente possível. Ser artista era o meu objetivo desde criança. Eu sabia que eu queria ser, só que eu não sabia o que eu iria fazer para isso. Aí eu fui seguir o que pra mim era o mais fácil, eu sempre gostei de desenhar. Eu falei, “É, eu vou ter que seguir isso aqui, porque é o que eu tenho acesso agora”. Eu não sabia se eu ia cantar, se eu ia pintar tela, se eu ia interpretar… Eu queria ser um artista e segui esse caminho.

 

EXTRA!Ordinário: Como foi o processo de encontrar sua própria estética?

Capim: A estética do trabalho foi algo pensado desde o início, porque, como sou autodidata, eu comecei sem técnica alguma e sem ter muitas condições pra isso. Então eu sempre costumo dizer que foi muito baseada naquilo que eu não sabia fazer. Então eu comecei a descartar as coisas que não teriam na minha pintura. Se eu não sei fazer um rosto, a estética das minhas pinturas vai ser sem rosto. Não sei fazer um dedo, então não vai ter dedo. Aprendendo sozinho, nessa inocência toda, era mais prático me basear naquilo que eu sabia, porque aí a estética iria suprir essa falta de técnica. Muito para além de eu estar sendo autodidata, era um autodidata solitário. Eu estava aprendendo sozinho, literalmente sozinho. Então por isso que eu falo que a minha vontade de ser artista, é algo bem na inocência mesmo. Eu só queria ser porque eu via e queria.

 

EXTRA!Ordinário: Em meio à dificuldade você encontrou seu jeito próprio…

Capim: Sim, porque eu queria muito começar logo. Desde quando eu comecei a pintar, já fui pintando os orixás. A estética do meu trabalho, tudo foi pensado nisso que eu já faço hoje. Eu queria uma estética que fosse algo só meu. A minha técnica é a minha assinatura, entende? A minha marca é a estética do meu trabalho. Quem conhece meu trabalho de forma mais profunda, quem me acompanha, se ver um trabalho meu em qualquer lugar, vai conseguir identificar que é meu, mesmo se não tiver uma assinatura.

 

EXTRA!Ordinário: Quais foram as dificuldades que você encontrou nesse estágio inicial?

Capim: As dificuldades de início são as que vão permanecer acho que pro resto da vida de um artista, que é a financeira. Eu, “pobre Alice”, entrei nesse meio sem estar inserido. Filho de pessoas pobres do interior do Ceará, de uma família toda de semianalfabetos, eu não tinha esse acesso. Não tem pinturas na minha casa, a não ser as minhas que eu pinto hoje. Meus pais não sabem ler e escrever direito. Eu não tinha acesso a tantos livros, então acho que a minha dificuldade em particular no início foi não ter por onde começar. Eu sempre lembro da minha primeira tela com um pedaço de madeira que eu peguei na rua pra poder levar para casa e pintar porque eu não tinha dinheiro para comprar uma tela. Então a minha dificuldade no início foi esse começo sem investimento.

 

EXTRA!Ordinário: E agora, você acredita que a internet seja uma aliada para a divulgação dos seus trabalhos?

Capim: Com certeza. Desde o início eu tive o Instagram como principal plataforma de trabalho, é como as pessoas do mundo todo podem chegar até mim. E é até por essa falta de ter espaços. A minha primeira exposição foi no meu Instagram, antes de qualquer sarau que tivesse aqui na cidade para eu levar minhas telas. Eu sempre usei das redes sociais para poder mostrar meu trabalho para as pessoas, já que eu tinha essa dificuldade. Muito para além de não ser uma pessoa tão bem sociável assim, da timidez, etc., ainda tinha a questão da falta de espaço e do convívio com outros artistas. Então o que eu podia fazer por mim mesmo era ir atrás da minha própria plataforma, que são as redes sociais. 100% a minha aliada.

 

EXTRA!Ordinário: O que é mais difícil para você vivendo no interior baiano, no berço da ancestralidade africana, onde a arte ainda é pouco valorizada?

Capim: Eu acho que é a falta de acesso a material. Um material importado, por exemplo, que às vezes nem é tão caro, mas quando chega aqui no Brasil chega primeiro nas grandes capitais, São Paulo e Rio de Janeiro, e quando vem para o Nordeste chega muito mais caro. Aí tem que pagar frete também. Aqui em Vitória da Conquista, especificamente, não existe uma loja de material artístico. Eu me viro aqui com papelaria, material escolar e compras na internet. Então uma dificuldade enorme é o acesso a bons materiais profissionais de pintura, porque o que eu uso não é o mesmo que uma criança que está indo pra escola usa. É também acesso a lugares para você levar o seu trabalho. Aqui em Conquista não tem um lugar específico. Aqui tem muito artista, mas estão todos escondidos, cada um na sua toca, porque, pra onde que vai levar seu trabalho? Não tem. E quando tem, só quem sabe é um grupo determinado de pessoas. Acontece que são sempre os mesmos, nunca tem espaço para artistas iniciantes como eu. Independentes, pequenos, jovens… Infelizmente o próprio lugar onde a gente vive nos empurra para fora. Minha ideia é construir a minha história aqui na Bahia, só que, às vezes, me sinto empurrado pra fora. Vitória da Conquista não é um lar para artistas. O Nordeste em si, até se for em capital. Temos ótimos artistas aqui, eu estou aqui. Eu estou vivendo de arte, mas eu vivo de arte aqui levando meus trabalhos pra fora, pra São Paulo, Rio de Janeiro e, atualmente, até pra fora do país, como Austrália, Suíça e EUA. Mas não roda aqui na Bahia. Você tem que estar levando pra fora e dependendo dessas pessoas de fora.

 

EXTRA!Ordinário: E como você lida com a imprevisibilidade da vida de artista independente?

Capim: Eu lido não lidando. Estou muito acostumado a ter uma alta demanda de trabalho. Meu trabalho é muito de decoração, é uma arte muito visual. Então eu trabalho com muita encomenda, pinto para vender. Às vezes eu tenho essas demandas que me fazem passar um mês inteiro desesperado para poder dar conta dos trabalhos, dos prazos, pra poder entregar. Não consigo viver minha vida, mas consigo me manter, me organizar. E acontece, às vezes, do nada, você se vê passando um mês sem vender nada, dois meses, três meses. Eu lido com isso sabendo mexer com dinheiro, sendo uma pessoa organizada. Já passei cinco, seis meses sem vender um trabalho, mas eu consegui me manter porque me organizei pra isso. É entender que você não tem uma profissão comum, não é um autônomo comum. Você é um artista, está vivendo de arte e tudo pode acontecer. A arte não caminha junto com o dinheiro, mas infelizmente eu preciso de dinheiro para poder estar vivendo.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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