Artistas de rua, os “hippies” brasileiros
por: Clara Nunes e Luíza Batista

Artista de rua, Rafael Cordeiro, exibindo algumas das suas criações na praça 9 de Novembro, Vitória da Conquista-Bahia. Foto: Luíza Batista
Esta entrevista realizada com Rafael Cordeiro, 35 anos, formado em gastronomia e que atua como artesão há 15 anos, busca desconstruir os estereótipos criados na sociedade sobre os “hippies” brasileiros e esclarecer o movimento dos artistas de rua. Neste bate-papo, vamos entender melhor esse estilo de vida, sua relação com a arte e resistência, além dos problemas enfrentados pelos adeptos desse movimento, por meio de relatos do nosso entrevistado sobre suas experiências.
EXTRA!Ordinário: Na nossa sociedade é muito comum as pessoas associarem vocês aos hippies. O tema que escolhemos foi a desconstrução desse estereótipo que as pessoas criam. Rafael, por que essa denominação é incorreta? Por que vocês não são hippies?
Rafael Cordeiro: O movimento hippie foi contra a Guerra do Vietnã, na época era a sociedade mais rica, era os filhos de burguês (sic). O movimento “paz e amor”. O artesanato começou nos anos 60 também, só que tem essa diferença, a Malucada é do movimento “viver do que você faz”. Era uma galera [os hippies] que não fazia arte nenhuma, eles eram só um movimento contra a Guerra e acabou que a gente adquiriu esse apelido “hippie” por causa das vestimentas meio parecidas, dread, barba grande. Na verdade, a gente é artista de rua. E a gente é considerado Maluco de BR, porque não tem parâmetro. Está aqui nessa cidade, vai pra outra, sempre procurando matéria para poder criar arte e conhecendo os lugares que a gente passa. E os hippies da época não viajava, não fazia artesanato, nem nada (sic). Era outra história. Mas acabou esse apelido ficando.
EXTRA!Ordinário: Você tem uma formação profissional, em gastronomia, e já atuou em um trabalho convencional. Quais foram as suas motivações para escolher não apenas esse novo formato de trabalho, mas também esse estilo de vida?
Rafael Cordeiro: A liberdade, de poder ir e vir. Eu sou um Maluco de BR, um artesão, eu posso me locomover a hora que eu quero, conheci vários lugares. E ser o meu próprio patrão, fazer o que gosto. Não que a culinária não seja uma coisa que eu gosto, mas é legal você desenvolver a sua arte. Você viver da sua própria arte, tentando se afastar um pouco desse sistema capitalista.
EXTRA!Ordinário: O movimento hippie, em 1970, teve uma atuação de contracultura. Atualmente, ao se liberar dessas limitações sociais, seu estilo de vida representa uma forma de resistência também. Sendo assim, qual é a sua relação com a política?
Rafael Cordeiro: A política, para mim, não influencia em nada. Eu nem sou muito chegado em política. Meu estilo de vida é meio anarquista, sem pátria, sem padrão e sem patrão. Pra mim, hoje em dia a política virou um palco de stand up, você vai assistir um debate, você até ri. É só poder querendo assumir poder e o povo na mesmice. É muito fácil fazer uma propaganda eleitoral com a criança sorrindo, família sorrindo e nem se importar depois que desliga a câmera. Mas ninguém tem coragem de ir na periferia, onde a pessoa não tem um banheiro decente pra fazer as necessidades básicas do dia a dia ou dar um banho numa criança. Isso aí eles não mostra (sic), para mim isso é uma vergonha “mano”, porque a realidade é outra. Então, eu não perco tempo com isso, lógico que a gente tem que fazer revolução, mudar. Mas, infelizmente o sistema é mau, se você tentar fazer alguma coisa, eles te boicota (sic). Eu penso que a política não vale de nada, só pra roubar e tapear o povo. Vai iludindo quem não tem estrutura de sabedoria, é carente de cultura e carente de escolaridade. Aí eles pegam essa massa, que é a maioria da população, que não tem conhecimento, e usam essas pessoas para manipular, em troca de mixaria.
EXTRA!Ordinário: Nos chamou muita atenção sua tatuagem, está escrito “resistência”. Qual é o significado que essa palavra tem para você?
Rafael Cordeiro: Resistência, porque a gente expõe no chão, na rua e muita gente tem preconceito, acha que a gente é vagabundo, acha que a gente é drogado, alcoólatra, mas na verdade tem muita família que vive da arte, cria seus filhos com ela. E a resistência é seguir aí, não depender muito do sistema, fazer nossa arte com nossas próprias mãos. Não pensar em comprar nada industrializado. A resistência é viver do que você ganha, “tá ligado?” (sic) Pouco ou muito, mas sem depender de ninguém. Depender mesmo da arte que a gente faz. Através da minha arte eu viajei o Brasil por volta de mais de dez anos, já conheci três países diferentes, tudo com artesanato e tudo na resistência. Nós veste diferente, tem uns que tem dread, tatuagem no rosto e por isso a maioria da sociedade fica meio que chocada. Mas na verdade, é só um estilo de vida. Então a gente tá aí pra sobreviver. Porque rico, quem fica é político, e nós tá aí, nós é trabalhador igual ao outro (sic), porque a gente paga imposto. Só que a diferença é que eu trabalho pra mim mesmo. E às vezes as pessoas ficam indignadas, já que não tem coragem de fazer o mesmo. E a gente tem essa coragem de botar a cara a tapa na rua, sol e chuva nós está aí, sobrevivendo 100% da arte.
EXTRA!Ordinário: Você falou bastante da sua arte, nossa pergunta é, se além de ser seu trabalho, sua fonte de renda, a arte tem algum outro significado especial para você?
Rafael Cordeiro: Arte para mim é vida. Arte salva vida. Arte para mim é tudo. Quando eu faço uma peça eu fico admirando ela por um tempão, “Caralho, eu que fiz”. É melhor do que eu chegar num bar e tomar uma cerveja. Pra mim, ver uma arte que eu fiz com minhas próprias mãos me dá um prazer inexplicável. Uma pessoa admirar, comprar sua peça por satisfação e usar, para mim, isso no artesanato é encantador. É um talento do Criador. O Criador dá talento pra todo mundo, igual a vocês aí. O jornalismo é um talento também, é satisfatório vocês fazerem uma entrevista, dá uma alegria imensa. A mesma coisa pra gente que mexe com artesanato. A gente está sentado no chão, mas não é um qualquer. Pra mim, é um prazer fazer arte, ainda mais quando as pessoas gostam.
EXTRA!Ordinário: Esse movimento vai contra as regras estabelecidas pelo sistema. Quais são as dificuldades enfrentadas com relação à violência por parte de instituições, como a polícia, por exemplo?
Rafael Cordeiro: Artista de rua tem direito de expor em qualquer praça, de qualquer cidade do país. A gente cria nossos trabalhos, sai do nosso coração e da cabeça. Tem lugar que a autoridade chega e fala que a gente não pode expor porque a gente não paga imposto. Imposto a gente paga até numa bala que a gente compra. Mas eles não consideram como cultura, e na maioria das vezes eles já chega (sic) quebrando tudo, prendendo, batendo, usando a violência quando a pessoa só tá ali no chão trabalhando, fazendo artesanato, e eles confunde isso (sic). Os guardas municipais e a polícia já chega agredindo todo mundo (sic), sem perguntar nada, de onde veio, pra onde vai, se tem família ou criança. A gente sofre muito com isso, não em todo lugar, né? Mas na maioria das cidades, ainda mais se for turística. “O bagulho é doido”. (sic)
EXTRA!Ordinário: Para finalizar, nossa última pergunta. Para muitos, alcançar a liberdade é também alcançar a felicidade, você se sente feliz depois de ter mudado para esse novo modo de viver?
Rafael Cordeiro: Com certeza. Tudo na vida tem os momentos ruins e os momentos bons, desde trabalho, relacionamento, familiares e amigos. Mas, para mim, o artesanato é tudo. Tem por volta de 15 anos que eu mexo com artesanato, e para mim é tudo.

