O impacto social da pandemia na construção da realidade e na saúde mental da população
por: Alice Café e Ana Flávia Costa

Psicólogo Edivaldo Souza Santana, pós-graduado em terapia cognitiva comportamental logo após a entrevista. Foto: Ana Flávia Costa
A saúde mental tem sido um tema muito recorrente na atualidade, por conta do grande aumento de casos de doenças psicológicas que afligem a população brasileira. Ademais, em decorrência da pandemia do COVID-19, uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos em 2021, encomendada pelo Fórum Econômico Mundial e cedida à BBC News Brasil, apresentou que 53% dos brasileiros declararam uma piora no seu bem estar mental. Para além do lockdown que modificou completamente a forma de viver a qual a sociedade já estava acostumada e o medo e aflição constantes ocasionados pela gravidade do vírus, muitas pessoas também tiveram que lidar com o luto, já que o número de casos de óbitos no Brasil passaram dos 680 mil, até outubro de 2022 de acordo ao Johns Hopkins University Center for Systems Science and Engineering (JHU CSSE). Paralelo a isso, Edivaldo Souza Santana é psicólogo pós-graduado em Terapia Cognitiva Comportamental e atua na área clínica e no Projeto Oxente, uma Organização Não Governamental (ONG) reconhecida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), com a finalidade de ajudar crianças em situação de abandono. Em detrimento a essa questão convidamos o especialista para relatar sua vivência nos consultórios de psicologia em relação ao impacto que a pandemia causou na saúde mental da população brasileira.
EXTRA!Ordinário: Quais os danos psicológicos que as consequências da pandemia trouxeram?
Ed Santana: Diversos! Hoje os principais danos, foram os transtornos de ansiedade, que foi o que mais veio à tona e o transtorno do pânico que deriva do transtorno de ansiedade. E em consequência dos transtornos a insônia, os surtos, a depressão e o suícidio.
EXTRA!Ordinário: Como ocorreu a retomada da profissão após a pandemia, em relação a quantidade de pacientes recebidos anteriormente?
Ed Santana: Não tenho mais agenda para este ano, apenas a partir de maio do ano que vem. A maior demanda aqui é de crianças, os pais sempre estão entrando em contato, a procura aumentou e tudo isso foi após a pandemia. O nosso maior público aqui são mulheres e crianças, a maioria que nos procura 98% são do sexo feminino.
EXTRA!Ordinário: Qual o principal motivo para o aumento da demanda do público infantil?
Ed Santana: A maioria com sintomas de ansiedade, ou irritabilidade e num geral os pais não sabem lidar com isso. Nós treinamos mais os pais, do que as crianças e a terapia sempre conta com a participação deles ou do tutor legal. Elas apresentam sinais como: roer as unhas, arrancar os pelos dos cílios ou dos cabelos, a criança fica mais agressiva ou em alguns casos quieta demais, já que o transtorno não está apenas ligado aos surtos ou agitação, o silêncio pode ser algo que pode estar relacionado a doença emocional também.
EXTRA!Ordinário: No ano de 2020 o serviço de denúncias “Disque 100” teve 95.247 registros, 8.447 a mais que em 2019. Até maio de 2021, foram registrados aproximadamente 35 mil casos de violação dos direitos de crianças e adolescentes. O aumento destes casos é consequência principalmente do isolamento ocasionado pela pandemia. Como é a abordagem feita na clínica em situações de violência infantil?
Ed Santana: Nós recebemos aqui vítimas de abuso, casos de crianças violentadas. Quando o caso é mais grave e vemos que não tem como lidar com aquela situação, precisamos procurar, por questão de ética, outros profissionais, um órgão de justiça. Casos como já tivemos de estupro, precisamos acionar uma rede de apoio para buscar uma proteção para essa criança. E com certeza, a pandemia contribuiu para o aumento desses índices de violência, principalmente contra a mulher e a criança.
EXTRA!Ordinário: Existe algo positivo que a pandemia pode ter acrescentado para a vida pessoal das pessoas?
Ed Santana: Com certeza. Pessoalmente, a pandemia me ensinou muitas coisas, valorizar os relacionamentos, ao ar que respiramos, a liberdade de poder sair. Naquele momento em que foi liberado o confinamento e a gente pode sair, voltamos a trabalhar e o comércio abriu, a sensação foi igual aqueles filmes de guerra, quando ela termina e todo mundo sai de casa, vê os escombros e mesmo com o dano, tem um alívio porque a guerra acabou, pela sensação de liberdade. A pandemia nos aprisionou e quando isso passou, aprendemos a valorizar nossa liberdade, o direito de ir e vir. Nos ensinou a ter mais amor com o próximo. Potencializou um processo de autoconhecimento, pessoas descobrindo fraquezas e pontos fortes.
EXTRA!Ordinário: Como você lida com a responsabilidade atribuída a sua profissão mediante a vida das pessoas?
Ed Santana: Sou apaixonado pela profissão! Primeiro que, quem me procura aqui não está bem. Essa é a primeira coisa que eu sei antes de conhecer essa pessoa. Então quem entra aqui, pra mim não é o religioso ou o não religioso, rico ou pobre, é o ser humano. Eu sei lidar com as pessoas e sempre fui apaixonado pelo ser humano! Foram duas coisas que casaram bem pra mim, a história da minha vida mostra que sempre me importei com o próximo. Eu não entrei na psicologia para aconselhar alguém, pois já fazia isso antes, a psicologia não aconselha, o que é fantástico é a pessoa sair daqui se conhecendo, percebendo seus potenciais. Em resumo, uma das coisas mais maravilhosas da minha profissão que eu gosto é dar motivação para quem não tem motivação para viver. Sonhos, para quem não tem sonhos para viver e força, para quem não consegue reagir.

