Porcentagem do Talvez
Ando nas ruas e observo cada sombra individual que compartilha o coletivo. Observo seus comportamentos, suas maneiras diferenciadas de caminhar, de segurar a bolsa ou de conversar com seu parente através do celular – objeto muito bem agarrado por todos, como uma preciosidade, sem exceção…viva o Brasil! -, e, então, observo os olhares. De repente observo os olhares dirigidos às mulheres; escuto os comentários e os ruídos; escuto o desejo de xingamento; desejo de dignidade, mas também escuto o medo das consequências. Logo penso nas notícias, a divulgação de dados de Vitória da Conquista pelo G1, de pouco mais de duas mil denúncias de violência contra a mulher em 2021. Penso nos nomes daquelas que vi, vejo (e com certeza verei) na televisão.
Ainda presa nessa espiral, tento raciocinar, tento lembrar se ignorei algum sinal de socorro, se posso testemunhar mais um nome na televisão, mas se dessa vez será de uma conhecida ou se um dia poderá ser o meu. Por incrível que pareça meu raciocínio me levou a algum lugar: a vizinha loira da minha avó que nunca soube o nome, “pobre e perdida em um mundo insatisfatório”, diziam as ruas. Lembrei dos gritos que escutava da casa dela e do namorado, quando eu passava a noite na casa da minha avó. Liguei para ela… Me disse que soube, por ligações comuns entre uma vizinha ou outra, que o casal se mudou para São Paulo. Ele, perdido sob efeito químico que o fazia agir de forma tão estranha com a loira, foi dado como desaparecido, e ela, com alterações físicas do que passou ao lado dele, sem notícias recentes.
Talvez “não meter a colher em briga de marido e mulher” tenha sido um erro; chocante ver que o silêncio e indiferença, talvez, não seja a melhor escolha. Logo meu pensamento se dividiu e comecei a pensar no “talvez”… Conclui que na verdade ele apenas indica, em casos assim, que sua existência em qualquer oração deveria ser anulada. Sem “talvez” alguém teria resgatado a vizinha loira que toda noite lidava com o estardalhaço do seu namorado; alguém teria feito algo para resgatar cada vizinha que gritou por socorro e alguém não teria que escrever tantos nomes no roteiro do jornal diurno. Sem o “talvez” eu não estaria sentada em um banco, observando, dessa vez, um homem agindo de forma estranha, imaginando coisas estranhas, sem pensar se “talvez” alguém me salvaria.

