Não faz mal esperar
Meu avô, quando jovem, era um bom viajante que amava conhecer as cidades deste país tropical. Buscava conhecer o clima, os sabores e as sensações de um novo lugar. Certa vez, visitando a Bahia, calhou em escolher uma cidadezinha pequena e quase desconhecida, estava curioso para o que aquele lugar poderia lhe proporcionar.
À primeira vista, observou a grande paisagem natural e sentiu um ar puríssimo, diferente de sua metrópole natal. Se impressionou tanto que não deu atenção ao senhor que estava no chão, lhe pedindo comida. Fez cara feia pro velho.
Continuou andando. Desta vez, observou os pássaros bem característicos daquela região. Olhando pro alto, tropeçou no buraco que fazia parte da estrada de chão do lugar há um longo período. Caiu e machucou a perna.
Se dirigiu, então, ao único postinho de saúde da cidade. Lá, se espantou com o tamanho da fila de adoentados. Uma mulher, com aparência cansada, o abordou:
– Oras, o que fazes aqui, senhor? Não é daqui! Tão bem vestido e embelezado. Por que nos procura?
– Encantava-me com os pássaros e caí no buraco. Devo precisar de um ponto ou dois na perna – meu vô respondeu.
– Ah, aquele buraco! A prefeita prometeu que ia tapar. Mas vamos, vamos! Que impressão terá da cidade se ficar na espera, com dor na perna? – falou a moça, intrigada.
– Mas e toda essa gente na fila? Suas pernas também não doem? – perguntou meu vô, com muita inquietação.
– Ah, doem, sim, mas já estão acostumados. Não faz mal esperar mais um pouquinho – a mulher respondeu com indiferença.
Com a perna enfaixada, meu avô voltou a apreciar os encantos da cidade, feliz em saber que tinha dinheiro suficiente para não passar pelos aperreios que aquela gente passava.

