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Economizamos demais e notamos isso

É perceptível que, no mundo político, a participação feminina é pequena. Historicamente é perceptível a dominação masculina que estava diretamente presente nas decisões políticas, enquanto as mulheres nem mesmo tinham suas opiniões consideradas. As lutas femininas fizeram com que houvesse uma mudança nesse quadro com a conquista do direito ao voto e, mais tarde, com a participação ativa na política.

Com intuito de amenizar a desigualdade de gêneros na política brasileira, em 1995 a Lei 9.100/95 determinou a reserva de uma cota mínima de 20% de vagas para mulheres nos partidos políticos. Assim, os partidos são obrigados por Lei a abrirem espaço para mais mulheres participarem da politica no Brasil. Essa Lei foi um meio para começar a amenizar o déficit de representatividade feminina na política. Se pensarmos que essa Lei 9.100/95 foi criada para diminuir a isonomia podemos questionar: por que apenas 20%? E por que foi preciso uma lei para que houvesse participação das mulheres nos partidos políticos?

Na nossa construção social/cultural não é comum nossas jovens sendo incentivadas à formação política. Somos estimuladas a cuidar da casa, sermos boas mães, boas esposas. Que encaremos a verdade, ainda vivemos em uma sociedade em que o machismo e o patriarcado predominam, e quem recebe incentivo, auxílio e credibilidade para participar da política é o homem. E se for para seguir em obviedades, na atual situação do Brasil, quem participa mais ativamente na tomada de decisões é o homem branco, de classe média alta, movido por impulsos religiosos (de boa fé), o famigerado “cidadão de bem”.

Mulheres, mães, donas de casa, estudantes, trabalhadoras. A rotina feminina é completamente diferente, é uma rotina sem pausas. Quando estas aparecem, o cansaço bate à porta. Sem encontrar apoio, pois incentivadas já não são, dificilmente quererão ter uma participação mais ativa na política. Vejam bem, não é fácil lidar com um ambiente onde é visível que quando uma mulher fala em meio a tantos outros políticos homens ela é interrompida constantemente (prática conhecida pelo termo em inglês manterrupting), ou suas causas não são levadas a sério. Afinal, mulher fazendo política, defendendo uma pauta? “QUE PALHAÇADA!!”. A famosa “histeria” feminina é bem falada, não? Ou o “mimimi feminista”, que é colocado por alguns políticos que fazem questão de exporem esses pensamentos de desprezo, ainda mais quando uma mulher fala.

Se voltarmos um pouco ao passado, veremos que as pequenas conquistas das mulheres foram realizadas por meio de luta. O movimento sufragista, por exemplo, teve início em meados do século XIX e ganhou força no início do século XX, em que mulheres lutavam para conseguirem o direito ao voto. Nos EUA, as mulheres puderam votar a partir de 1919. Já no Brasil, esse direito foi conquistado em 1932 e consolidado em 1934. Ainda assim, inicialmente, com condições impostas para a participação no voto, como ser casada, ter aprovação do marido e ter renda própria. Foi preciso reivindicações para as mulheres terem direito à educação, ao voto, à participações mais ativas na sociedade e na política. Afinal, vivemos em uma democracia e é sobre igualdade que falamos, mas para as mulheres a igualdade não é democrática! É uma conquista por meio de luta.

Por meio de lutas conquistamos os poucos direitos que temos hoje. E apesar de tantos anos de evolução, de demonstração da força feminina e, sendo redundante, de lutas, podemos ver que a desigualdade persiste, o preconceito persiste. Temos como exemplo a pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualizada no dia 8 de junho de 2018, que mostra dados desiguais entre os gêneros, tais como, horas dedicadas a afazeres domésticos, educação e rendimento. Enquanto os homens ocupam 60,9% dos cargos gerenciais, as mulheres ocupam 39,1%. Em relação ao rendimento habitual médio mensal de todos os trabalhos, as mulheres ganham em média R$ 1.764, enquanto os homens, R$ 2.306. A desigualdade salarial ainda é muito alta, as pesquisas variam, mas os índices não mudam e deixam a desejar em questão de paridade.

As cotas partidárias sofreram algumas alterações com os anos. A Lei N° 9.504/97, no Art 10, § 3°, diz que “Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação preencherá o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo”, sendo uma mudança na Lei Nº 9.100/95. As cotas abrem discussões entre as mulheres. É um meio de amenizar o déficit de representatividade, como eu disse, mas até que ponto os partidos investem em campanhas para candidatas? Esse é um ponto ressaltado por aquelas que disputam os cargos políticos, de que as verbas destinadas às campanhas partidárias não são distribuídas de forma igualitária.

Não é pela cota existir que ela é preenchida, ainda há o fator de que o desinteresse feminino e a falta de incentivo persistem. E até que ponto, as candidatas apoiadas, querem de fato estar em um cargo político? Muitos partidos simplesmente, para preencherem a cota, apoiam mulheres que não estão familiarizadas com o meio. Podemos ressaltar que essa cota visa a “igualdade”, mas de forma que as mulheres possam ocupar cargos que elas almejam e não para bater metas. Volto a tocar no ponto do incentivo. Se forem incentivadas a participarem da política, a se engajarem em causas sociais, a estudarem, e saírem dessa criação patriarcal, possivelmente os índices mudariam.

Não podemos deixar de ressaltar que só o incentivo para as mulheres não mudaria o fato de o preconceito existir, de o machismo persistir. A construção da nossa sociedade, passada de geração para geração, reproduz o discurso machista de que o lugar da mulher é cuidando da casa e dos filhos, e que o do homem é trabalhando e alimentando a família. A reprodução desse discurso faz com que crianças cresçam agindo como se fosse algo normal e certo, e admirando seus avôs e seus pais que reproduzem o discurso machista. É válido ressaltar que o que realmente importa é a mulher ter autonomia sobre suas escolhas. Casar ou não, ter filhos ou não, trabalhar ou ficar em casa cuidando dos filhos. Escolhas que dizem respeito a elas e que não devem ser impostas por terceiros.

Se a forma como a construção social/cultural estivesse adequada com todo esse histórico de lutas, não seria de se estranhar mulheres com o mesmo salário de um homem com o mesmo cargo, ou mulheres em seus cargos políticos defendendo suas causas sociais, suas pautas. São essas questões que fazem refletir a vergonhosa posição do Brasil no ranking mundial da participação feminina na política. O país ocupa a 152ª posição, entre 190 nações pesquisadas, pelos dados divulgados pelo IBGE. O nosso país cada vez mais retrocede. Retrocesso esse, que deveria ser inexistente.

“Quem tudo economiza tem tudo que precisa. Não estou sendo desperdiçada. Por que ainda preciso?” Margaret Atwood escreveu esse trecho no seu best beller O Conto Da Aia, que me fez refletir: as mulheres passaram um longo tempo sendo marginalizadas e, de certa forma, “economizando” suas vozes, não às desperdiçando, se contendo. Então por que precisaram ir à luta para conseguirem direitos igualitários? Por que a necessidade do voto? O querer ter direito sobre seus corpos? R E C O N H E C I M E N T O do seu trabalho, da sua capacidade intelectual, dos seus diplomas terem valor? Porque economizamos demais, e notamos isso!

E porque se fez notória essa economia que a luta pelas nossas causas se tornaram perigosas. Pois se persistimos com a busca da igualdade de gêneros, do nosso lugar ser onde quisermos, a história mudará mais. Mudanças assustam. Mas todas essas histórias de lutas devem nos impulsionar a correr atrás de nossos objetivos, sem fazermos distinção de gênero. A persistência pela igualdade de direitos, de deveres e atenção às causas, que são de grande significância devem continuar. Nós mulheres não podemos deixar de lutar pelos nossos direitos.

Aline Ribeiro
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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