Saúde mental pós-pandemia
por: Helena Meira, Luana Soares e Stefanny Rocha

Emille Freire, psicóloga atuante no município de Vitória da Conquista, Bahia. Foto: Emille Freire
A pandemia causada pelo surto do COVID-19 teve um impacto intenso em diversas esferas da sociedade, e a saúde mental, se destacou como uma preocupação nesse contexto. O isolamento social, o medo da doença, as restrições às atividades cotidianas e o receio pelo futuro, criaram uma carga emocional para muitas pessoas. Após o período pandêmico, surge um novo desafio: a saúde mental pós-pandemia. Com o objetivo de trazer maior compreensão sobre o tema, entrevistamos a psicóloga, Emille Freire, que atua em Vitória da Conquista (BA).
EXTRA!Ordinário: Emille, estes são termos comuns de se ouvir no cotidiano, mas muitas pessoas não sabem o que significa. De maneira geral, o que são transtornos mentais?
Emille Freire: No geral, é aquilo que foge da regra. Numa breve definição, os transtornos mentais, são comportamentos atípicos, que de alguma maneira afetam negativamente a vida de uma pessoa.
EXTRA!Ordinário: Os transtornos mentais são prevalentes para algum público específico ou podem acometer qualquer pessoa?
Emille Freire: Qualquer pessoa. Geralmente, alguns transtornos mentais têm uma predisposição genética, então existem pessoas que possuem uma tendência maior a desenvolvê-los. Isso vai depender muito do ambiente em que estão inseridas. Existem pessoas que podem desenvolver algum transtorno, a depender do contexto em que vivem, mesmo sem ter uma predisposição genética.
EXTRA!Ordinário: Diversos estudos científicos apontam que a pandemia teve um impacto muito grande na saúde mental da população. Como psicóloga, o que a senhora considera como principais causas desta alteração comportamental das pessoas após a pandemia?
Emille Freire: Nós, enquanto seres humanos, somos seres sociáveis. Dependemos, uns dos outros, para viver em sociedade e obter experiências mais saudáveis. Na pandemia houve o isolamento social, quando isolamos as pessoas socialmente, elas reduzem as habilidades sociais, o que contribui para desenvolvimento/agravamento de vários transtornos. Os transtornos com maior incidência de casos, foram: o transtorno de ansiedade no geral, especialmente ansiedade social, que é a ansiedade causada pela quantidade de pessoas ao redor e por medo de algum julgamento. E a própria depressão, que teve um alto índice após a pandemia. A conclusão obtida após estudos, é de que a principal causa foi justamente a questão do isolamento social.
EXTRA!Ordinário: A Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou o Brasil como o país com maior incidência de ansiedade no mundo, e o quinto em equivalência de depressão. Na sua perspectiva, há algum fator cultural que influencia este índice tão preocupante?
Emille Freire: Acredito que essa cultura do “trabalhe enquanto os outros dormem”, “faça tudo antes de morrer”. Essa cultura que incentiva a produtividade de uma forma mais intensa, favoreceu bastante para que esses transtornos se desenvolvessem. Estamos sempre nos cobrando para dar conta de tudo, e quando não conseguimos, nos frustramos. Essa frustração leva a sentimentos como ansiedade, depressão e transtornos semelhantes.
EXTRA!Ordinário: Quais recursos comunitários ou programas de suporte estão disponíveis para auxiliar na recuperação da saúde mental pós-pandemia?
Emille Freire: Temos dentro do SUS, o atendimento psiquiátrico e psicológico em algumas regiões. Temos os CAPS: o CAPS IA, que são para a Infância e Adolescência, e o CAPS 2, que é para adultos. Temos os CRAS e os CREAS. Infelizmente, nem todos contam com assistência psicológica e psiquiátrica para poder suprir a comunidade. Aqui em Vitória da Conquista, temos o ambulatório do CEMAE, que conta com o setor de psicologia e psiquiatria, e temos as clínicas escolas, onde os estudantes de psicologia treinam suas habilidades na prática [atendendo a população, de forma gratuita].
EXTRA!Ordinário: Como lidar com as mudanças nos relacionamentos pessoais e profissionais que ocorreram durante a pandemia?
Emille Freire: Como na pandemia, as pessoas estavam sempre com receio de algo ruim acontecer, uma dica é realizar uma exposição gradual. Não se cobrar tanto para estar bem o tempo todo. De vez em quando, ir a algum evento, estar num meio social; fortalecer as redes de apoio, que é o mais importante; estreitar os laços com amigos e familiares, para que haja suporte em momentos que sejam difíceis para você. Buscar a ajuda necessária, seja ela, psicológica, psiquiátrica ou de assistência social, são indispensáveis nesses momentos.
Diante das informações compartilhadas durante a entrevista, fica claro que a pandemia do COVID-19 teve um impacto enorme na saúde mental da população. Os transtornos mentais são uma questão complexa e desafiadora, e afetam milhões de pessoas em todo o mundo. É crucial reconhecer a importância de abordar esse tema de maneira compassiva, destigmatizada e baseada em evidências. Através de uma abordagem holística e colaborativa, é possível promover a conscientização e compreensão mútua, além de facilitar o acesso aos serviços de saúde mental.

