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Compreensão fenomenológico-existencial da vivência transvestigênere

por: Gabriel Campacci, Jailton Gomes e Ruan Coelho

Suzane Souza Brito (Zenna “Hentai Star”), compositora, DJ e produtora musical travesti. Foto: Ruan Coelho

 

Suzane Souza Brito mais conhecida pelo nome artístico Zenna “Hentai Star” é uma compositora, DJ e produtora musical que têm como referência artistas como Arca, Sophie, Ethel Cain e Ayesha Erotica. A multi-artista travesti de 22 anos desconstrói paradigmas patriarcais e demonstra resistência ao ser um corpo transvestigênere presente na arte.  Ao EXTRA!Ordinário Zenna “Hentai Star” relata suas vivências, trajetória e dificuldades no âmbito pessoal e profissional.

 

EXTRA!Ordinário: Como foi o processo de descoberta, reconhecimento e aceitação da sua identidade de gênero?

Zenna “Hentai Star”: Desde o começo da minha vida, eu me olhava e me sentia no feminino. Quando a gente é criança, querendo ou não, temos detalhes andróginos. Então, eu me via mais assim. Me identificava mais com as coisas que as meninas faziam, e isso foi crescendo, mas não levei pra frente por ter medo de travesti. Eu nem sabia o que era travesti. Quando fiquei sabendo sobre hormônio e que com ele você pode ter um corpo, um rosto, você pode ficar feminina com vários procedimentos, me senti feliz e comecei minha transição. Em relação aos meus pais, moro com minha mãe e com meu padrasto. Tenho uma relação bem complicada com meu padrasto, mas a minha mãe sempre me aceitou, mas com aquela tristeza de saber que tem muito preconceito.

 

EXTRA!Ordinário: Como você acredita que a sua identidade de gênero influencia suas relações, convívio no âmbito social e profissional?

Zenna “Hentai Star”: Somos lidas como homens por alguns gays que nos iludem dentro dessa realidade onde eles acham que são bissexuais. Com as minhas amigas é algo “bem de boa”, porque desde a minha transição, ajo assim com elas. No convívio social é muito chato, por conta dessa questão dos olhares que parecem ser de desaprovação. E no trabalho, é algo que sufoca, sabe? Porque se alguém erra seu pronome, falando do trabalho de carteira assinada, você não vai ter o direito de reivindicar isso, porque não está no seu documento, e tem que ter o documento pra você ter esse respeito no ambiente de trabalho. Em relacionamentos, acho meio uó. Tem garoto que fica comigo me chamando pelo masculino. Tem esses “travequeiros” que ficam “Ah, é quase uma mulher”, e tem essas lésbicas futuristas que querem ficar com travesti, eu não confio. Elas acham que sou um homem.

 

EXTRA!Ordinário: Você mencionou sobre trabalho formal, de carteira assinada. Você já tentou procurar? Já conseguiu? Já trabalhou?

Zenna “Hentai Star”: Na minha cidade só se consegue as coisas quem é parente de alguém que já tem um cargo. E pra mim é difícil, até com minha irmã sendo diretora da prefeitura, porque da última vez que ela conseguiu um trabalho pra mim, foi um trabalho de margarida, aquelas mocinhas que ficam varrendo a rua, gari mulher, sabe? Às vezes o pessoal respeitava, às vezes não. Saí por causa de um problema de saúde, é um lugar com muito risco de pegar pneumonia, essas coisas e eu não queria ficar em um lugar desse. Não consigo entregar um currículo em uma loja, só se for uma loja de maquiagem e talvez nem queiram um “traveco”. O que tem pra travesti, é programa. Uma travesti não toma um hormônio sem o programa, ela não compra o que ela quer sem um programa. Se não tiver apoio da família, é programa. É muito risco de vida. Você está no meio do nada, com gente que não gosta de você. Quando você começa a frequentar um ponto de prostituição, você se sente acolhida. Você sente que lá é seu lugar, porque lá tudo são flores, todos os homens lá vão querer ficar com você, todas as trans vão te elogiar, todo mundo vai achar graça, vai rir. Mas na verdade isso é só o começo, depois as trans querem te bater, querem tomar seu dinheiro… E se responder uma delas, quando ficar com raiva de você, elas simplesmente vão querer te dar uma facada. Também existe o risco de pegar ISTs. Não faço mais porque tentaram me esfaquear, aí parei de ir. Mas minha irmã me ajuda com os hormônios, de vez em quando “futuco” um dinheiro, e consigo “me fazer” sem precisar dessas coisas. Já peguei muita gripe, por causa de ponto, fiquei bêbada, falei com drogado, com Deus e o mundo; entrei em carro de desconhecidos, fui pra casa deles. É uma vida assim… boa pra quem nasce com condições. O bom seria ser gay mesmo, ou então nascer logo mulher cis. Mas é uma luta que vale a pena, porque quando olho no espelho, me sinto bem, não sinto que sou uma coisa que as pessoas querem que eu seja, sinto que eu queria ser assim e estou feliz por ser assim.

 

EXTRA!Ordinário: Como foi a transição para atuar no ramo musical como DJ?

Zenna “Hentai Star”: Eu sabia produzir e desde quando conheci a Sophie, me interessei por produção musical, foi uma grande inspiração pra mim. Foi quando comecei a me descobrir e a Sophie me fez ficar e gostar muito desse mundo de produção. Eu não comprei coisas pra produzir, não usava aplicativo de DJ, eu fazia tudo do zero. Pensei assim, “Ah, tô ganhando dinheiro trabalhando, sei produzir, posso comprar uma roupa pra ir aos eventos, posso comprar uma maquiagem, então vou fazer isso e começar a ganhar mais dinheiro”. Só que meus cachês eram bem baixos, mesmo tendo uma fila de gays querendo me ver tocar. Ainda assim, os lugares que eu ia tocar me desvalorizavam. A primeira vez que eu toquei, foi no Ano Novo e todo mundo elogiou bastante. O público em si era o que mais me apoiava. Agora os lugares… só pra ter uma noção, em uma festa que fui tocar, eu fui a atração confirmada mais curtida. Meu próprio chefe me elogiava por isso, mas ele mesmo não dava valor. As pessoas estão lá para ver uma pessoa hétero cis, foi isso que me fez desanimar de continuar a tocar nessa cidade. Enfim, eu tive essa ideia e chamei uns amigos que me apoiaram. Eu sabia que ia ter um público, foi assim que levei todos os gays para os eventos, todo evento que eu ia tocar enchia, mas mesmo assim, todo meu esforço não foi o suficiente.

 

EXTRA!Ordinário: Dentro da questão de se sentir desvalorizada, diminuída, você acha que tem uma ligação direta com quem você é, com o seu gênero?

Zenna “Hentai Star”: Sim, tem. Se eu tocasse só músicas como Lady Gaga e Beyoncé eles não iam gostar, até o dono do evento iria chegar pra mim e falar: “Ei, toca funk, eles querem ouvir funk”. Então, sinto que era uma coisa que chocava, as pessoas não conseguiam digerir o meu trabalho por conta de quem sou. Eles não tão lá pra ver uma trans, eles querem ver um machão, colocando músicas de teor machista. Eles querem se sentir esses homens e as mulheres cis querem sentir que estão do lado desses homens, entendeu? A Pipokinha, por exemplo, uma cis, os homens não iam se sentir repreendidos. No caso, uma trans tocando, óbvio que eles iam ficar “Até que é bonitinha. Nossa, parece mulher de verdade”. As cis agem como se fosse a Pablo Vittar lá em cima, sendo que quando toco, não faço absolutamente nada, no máximo dou uma rebolada. Os gays sentem que é a Lady Gaga lá. O público-alvo é o público em geral, por isso que dava errado, sempre deu errado. Quero viver mais na música, até produzir para outras pessoas, por conta de que, aqui na minha cidade, onde eu quero ficar, não tem boate LGBT, então fica meio estranho.

 

EXTRA!Ordinário: Qual o papel da música na sua expressão de identidade de gênero?

Zenna “Hentai Star”: Desde criança eu tinha uma super conexão com a música, era a coisa que eu mais amava. Quando ia pra creche o melhor momento era quando eu ia para o pátio e tocava aquela música da “Chiquititas”, que dizia “Sempre haverá um ombro amigo…” e sempre que tocava essa música eu amava. Amava o hino da igreja. Ouvia Taylor Swift, gostava muito de country, de rock também, tipo a Avril Lavigne. Depois comecei a gostar de eletrônica. A música sempre foi a única coisa que conseguia expressar o que eu sentia, não precisava de psicólogo ou algo do tipo, porque tinha a música que dizia exatamente o que eu sentia e eu esquecia da realidade. A música sempre me salvou nos momentos mais difíceis que não tinha ninguém pra desabafar. Eu sempre quis alguma coisa na música, tanto que um dos meus maiores sonhos é ser artista. Sou artista, DJ, mas falo como uma grande cantora. É meu sonho viver disso. Eu não sei como começar. Já comecei, mas parece que o público é bem transfóbico e não tem tanto público LGBT, tem mais público na internet. A música sempre foi o que me inspirou, é o que sempre quis fazer da minha vida, viver de música, de produção, mas é uma coisa que requer muito trabalho, muito esforço. Você tem que abandonar muita gente, tem que fazer muita coisa que você não quer pra se dar bem nessa vida. Começa com você cantando no banheiro, depois vai compondo alguma coisa no meio da rua enquanto vai pra casa, depois produzindo e se empenhando, depois vai pra você se decepcionando com o público, ou se decepcionando com várias coisas, entendeu? Mas I love my fans.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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