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Treze anos de impunidade

É inegável que as marcas deixadas por Newton Ishii na operação Lava Jato jamais serão apagadas. De memes na internet a marchinhas de carnaval, o “japonês da Federal” virou uma celebridade conhecida em todo o país. Contudo, há certas coisas que me preocupam, principalmente nesse momento delicado que a política brasileira se encontra. Uma delas é que Newton se aposentou da polícia federal no início do ano de 2018 e no final de abril, assumiu a presidência do PEN (Partido Ecológico Nacional) no Paraná.

Antes de pensar no Newton como político, temos que pensar na sua vida profissional como policial. A princípio, ele ficou conhecido por conduzir para a prisão os empreiteiros, funcionários públicos, políticos e operadores financeiros que eram presos pela Operação Lava Jato. Mas a parte mais irônica da história é que entre os dias 6/9/2016 até o dia 21/10/2016 o policial fazia tudo isso usando uma tornozeleira eletrônica. Aquele que deveria ser um exemplo do combate a corrupção no Brasil, no final, era também um corrupto.

Em 2003 Newton foi expulso da Polícia Federal (PF) acusado de facilitar contrabando no Brasil pela fronteira com o Paraguai e foi preso preventivamente por cerca de quatro meses. Contudo, ele foi reintegrado à PF após uma sindicância interna. Em 2009 ele foi condenado, e no dia sete de junho de 2016 foi preso definitivamente. Além disso, seu nome foi citado algumas vezes durante a operação Lava Jato. Uma dessas citações alegava que Newton vazava informações para revistas, mas essa acusação nunca foi comprovada.

Ao ser indagado pelo jornal O Globo a respeito da prisão, Newton falou: “eles alegavam que eu facilitava contrabando, mas não houve apreensão, não houve testemunha […] Eu cheguei a ficar quatro meses preso, sem prisão em flagrante, sem mandado de prisão”. E apesar desse discurso convincente, nunca iremos saber o que se passou. Afinal, seu processo está segredo de justiça, e desse modo, ninguém além dos envolvidos sabem o que aconteceu de fato.

É mais do que perceptível que a justiça é lenta no Brasil, e eu não me surpreenderia se no futuro o nome de Newton Ishii aparecesse em outros casos de corrupção. Se formos analisar bem, tudo isso o que aconteceu com Newton é um incentivo para a corrupção.

Eu não estou escrevendo esse artigo para difamar o “japonês da Federal”. Na realidade, eu estou tentando compreender o que está acontecendo no cenário político atual e nas possíveis alternativas para que os casos de corrupção diminuam. Uma prática interessante é observar que as estratégias criadas por outros países para diminuir os casos de corrupção seriam de grande ajuda para o território brasileiro.

A Dinamarca está em primeiro lugar no ranking dos países menos corruptos do mundo. Segundo Gert Tinggaard Svendsen, professor de Políticas Públicas da Universidade de Aarhus da Dinamarca, as únicas pessoas que teriam o poder para combater a corrupção são aquelas que se beneficiam dela. Svendsen também afirma que corrupção aumenta a diferença entre pobres e ricos, fazendo com que a população não confie mais nas autoridades.

É exatamente isso o que acontece no Brasil. A população não confia nos políticos e nem na Justiça. A sensação que nós temos é a de que nenhum deles se importa conosco, e que tudo o que acontece no Congresso é apenas um “grande jogo” de quem consegue mais influência e poder. Pelo menos eu sinto que a série de Tv americana House of Cards traz em seu enredo  uma réplica menos corrupta do Brasil.

Existe uma explicação para a Dinamarca ser o país com menor índice de corrupção do mundo, e isso é algo que os políticos brasileiros poderiam copiar. Svendsen explica que o rei dinamarquês Frederico 3º começou o combate contra a corrupção no século 17, pois já que existiam muitos casos entre os nobres. Com isso, o rei se viu forçado a tirar os privilégios da nobreza e criou leis com punições severas para desvio de dinheiro.

Já o Japão, terra dos antepassados de Newton, está em 18º lugar no ranking dos países menos corruptos do mundo. Mesmo assim, muitos escândalos acontecem na “Terra do Sol Nascente”. A diferença é que a cultura japonesa abomina atos de corrupção, além de punir severamente aqueles que a praticam. Uma cena rara aconteceu no Japão e repercutiu mundialmente: chorando, Akira Amari renunciou o seu cargo de chefe da economia japonesa, e pediu desculpas publicamente por ter aceitado propina de uma empresa.

Seria mais fácil ver uma cobra fumando do que um político brasileiro pedir desculpas publicamente chorando. Porém, eu ainda tenho esperanças na transformação da política brasileira. Acredito que essa transformação não irá acontecer de forma pacífica, afinal, a história nunca nos mostrou uma revolução pacífica.

Marielle Franco é o exemplo disso. Ela lutou pelos seus compatriotas, denunciou casos de abusos policias e, por conta disso, foi assassinada friamente. Por conta dessa mudança que tentou fazer na política brasileira, ela foi silenciada para sempre. Sim, é perceptível que a mudança não é bem vista para aqueles que estão no poder, mas nós, que somos o povo, não podemos deixar criminosos impunes por outros treze anos.

Giovanna Paciullo
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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