Conviver com diabetes
por: Bianca Cruz e Erick Lima

Flávio Andrade – diagnosticado com diabetes tipo 1 há 13 anos. Foto: Erick Lima
O diabetes é uma doença crônica que afeta como o corpo utiliza a glicose (açúcar) presente no sangue. Isso ocorre por conta da produção insuficiente ou má absorção de insulina, que é o hormônio que regula a glicose. Essa doença pode causar diversas complicações a órgãos do corpo, como os rins, olhos e coração. É essencial entender as dificuldades e a vida de pessoas que convivem com diabetes, já que é causa de 6,7 milhões de mortes ao redor do mundo por ano. Flávio Andrade, 28 anos, estudante, lutador de Jiu-jítsu que convive com o diabetes tipo 1 há 13 anos e fala sobre a sua experiência.
EXTRA!Ordinário: No início, quando recebeu o diagnóstico, você sentiu muita diferença?
Flávio Andrade: Sim, porque, primeiro, eu era um menino muito rebelde. Em uma entrevista lá do BATV [programa jornalístico veiculado pela Rede Globo de Televisão], de um garoto mais novo que eu naquela época, sobre o diabetes, dizia que quem urinava bastante e bebia muita água corria muito o risco de ter isso aí. Era o que estava acontecendo comigo. Eu estava estudando, aí acontecia que eu ia no bebedouro da escola, tomava água, voltava e no mesmo instante eu sentia sede de novo. Falei “mainha, acho que eu tenho diabetes”, aí ela falou “larga de besteira menino, já basta os problemas que a gente tem”. Mas nisso ela também ficou meio na dúvida. Eu fui lá fazer o exame e deu o diabetes. Agora, para eu cuidar dos quinze anos para cá foi um pouco turbulento. Sabe como é criança, né? Com vontade de comer, de enfrentar os desafios achando que pode vencer tudo, e não é dessa forma. Eu matava aula para comer os bolos que ficavam na minha casa depois do aniversário. Comia escondido e sentia o arrependimento depois. Mas aí minha glicose dava normal, porque estava bem no início. Depois minha glicose começou a ficar descontrolada pelo fato dela ser a [tipo] um é muito difícil controlar.
EXTRA!Ordinário: Como você faz para controlar a glicose? Precisa associar medicação e exercício físico, por exemplo?
Flávio Andrade: Na realidade a gente tem que fazer uma rotina de exercício físico, alimentação, tudo correto. Para manter a glicose certa, na linha. Mas acontece que é um pouco complicado, para cada um de nós varia. Tem pessoas que têm condições financeiras boas e conseguem pagar academia, pagar uma boa alimentação e etc. Já tem pessoas que não conseguem por causa do custo. Eu, por exemplo, pratico academia, mas não regularmente. Recentemente tive uma lesão, aí tenho que estar fortalecendo o meu joelho. Mas ultimamente eu nem tenho feito por causa dos recursos financeiros. Está meio difícil para mim.
EXTRA!Ordinário: Conviver com diabetes e a alteração dos níveis de glicose afeta o seu humor?
Flávio Andrade: Afeta, sim. Vamos supor, se a minha glicose baixa e eu não encontro a alimentação adequada para que possa fazer com que a minha glicose suba, vai ficar no meu psicológico. Vou ficar querendo comer alguma coisa, a depender da situação, a gente realmente vai ficar estressado. A gente fica literalmente estressado, afeta muito.
EXTRA!Ordinário: Você sentiu uma melhora no atendimento público e privado em relação às pessoas com diabetes, do momento em que foi diagnosticado aos dias atuais?
Flávio Andrade: Não muito, porque o Governo você sabe como é, né? (risos) Mas ajuda, em comparação ao que era antes. Antigamente eu tomava insulina na seringa mesmo. Enfiava no corpo sem dó nem piedade. Hoje eu já consigo uma caneta chamada Lantus, onde você aplica, com uma agulha bem pequenininha e não traz nenhuma dor ao seu corpo. Tipo, dor vai fazer futuramente, porque ninguém é de ferro. Todo mundo vai envelhecer e passar a sentir dor no corpo. Então, hoje já está mais fácil, em relação a tudo isso aí. E também em relação às fitas, por exemplo, você vai na farmácia aqui agora e paga cem reais por uma caixinha de fita. Já com o Governo eu consigo as fitas de graça. Mas para isso preciso estar medindo, se eu não provar que estou usando, já era, eles cortam. E é a pior parte, porque, no meu caso, quando eu furo muito os meus dedos, acabam ficando bem machucados. Tiro uma semana para não medir, porque machuca o corpo da gente e dói, dói demais.
EXTRA!Ordinário: Haveria alguma sugestão sua de como as instituições públicas poderiam melhorar o atendimento às pessoas com Diabetes?
Flávio Andrade: Olha, uma melhoria que eu já pesquisei, é o Governo tentar liberar uma máquina que você coloca no seu corpo e ela já vai aplicando a insulina de acordo com o açúcar que tem (no organismo), entendeu? Aí fica mais fácil para a gente. Só falta isso aí para melhorar de vez. E também exercício físico, né? Tipo assim, locais de exercícios físicos mais apropriados. Já melhorou, né? Esses últimos tempos aí, mas precisa melhorar mais. Porque nem todo mundo gosta de ficar na praça o tempo todo. Mas gostam de outros exercícios físicos.
A depender da intensidade, episódios de hipoglicemia e hiperglicemia podem ser fatais. O desafio está em proporcionar tratamento adequado e acessível a todos os diabéticos, independente da sua classe social. Oportunidade de atendimento médico de qualidade, medicação apropriada, opções variadas de atividade física e apoio psicológico são alguns dos ingredientes essenciais nessa jornada. Entender o diabetes ajuda a tomar decisões mais acertadas acerca da convivência com a doença e promove aos não diabéticos a oportunidade de ser rede de apoio aos que vivem com essa condição de saúde.

