Vozes da repressão
Desde a colonização encontramos o cenário político, social e econômico do Brasil conduzidos por interesses econômicos. A desigualdade social, o monopólio das oligarquias e as mobilizações populares são fatores intrínsecos à sociedade capitalista e que transpassam todas as gerações até a contemporaneidade. Temos um histórico intenso de lutas realizadas pelo povo e em prol do povo, lutas essas que abrangem toda a pirâmide de classes e que geram efeitos permanentes em nosso cotidiano.
Em meio a esse contexto, alguns líderes políticos assumiram um compromisso de lutar, com destaque, pelas causas populares, utilizando políticas voltadas para as classes menos favorecidas economicamente e em situação de vulnerabilidade social. Entre estes líderes, cabe citar os ex-presidentes Getúlio Dornelles Vargas e Luís Inácio Lula da Silva, ambos considerados políticos do povo. Ao traçar um paralelo entres esses dois líderes é possível observar semelhanças em suas políticas públicas, assim como a repressão acometida a ambos.
Atuando em um governo provisório que teve duração de quatro anos (1930-1934), Getúlio Vargas, maior referência de governo populista, age com uma política de legislação trabalhista que se concretiza na década de 1940. Vargas tanto se auto proclamava quanto era considerado o “Pai dos Pobres”. Mesmo com sua atuação ditatorial e centralizadora que exerceu durante o Estado Novo, em 1937, Vargas investiu na infraestrutura do Brasil e deixou grandes marcas por beneficiar e garantir direitos aos trabalhadores. Por isso, em 1950, Vargas foi eleito pelo voto popular. A repressão que sofreu pela elite econômica, que se via insatisfeita e ameaçada por sua política populista o levou às últimas instâncias, sendo essas tão intensas que o fez em 1954 tirar a sua própria vida, de acordo com a literatura.
Já no século XXI o protagonista da história brasileira é o ex-presidente Lula, um ex-operário eleito à presidência da república pelo voto popular. Durante suas duas gestões consecutivas, o ex-presidente teve como objetivo essencial fornecer maior assistência, inclusão e condições de vida digna ao proletariado. No governo Lula, o Brasil teve redução da taxa de miséria, aumento real do salário mínimo, ampliação do acesso às Universidades públicas com o sistema de cotas, bolsas assistenciais aos mais necessitados, e diversas obras que fazem da sua gestão um marco nacional e internacional.
Após o fim do seu segundo mandato, Dilma Rousseff assumiu a presidência para supostamente dar continuidade a gestão realizada por Lula. Dilma, porém, fez o contrário: enfraqueceu os movimentos sociais criminalizando os manifestantes e as manifestações; fez péssimas alianças oligárquicas, como a com José Sarney; utilizou de políticas falidas, como a de guerra às drogas, na qual provocou um crescimento da população carcerária em condições desumanas. Fez também decretos de suplementação orçamentária sem autorização do Congresso, o que caracteriza um dos fatores para atual crise econômica do país, e aprovou a construção das enormes hidrelétricas na Amazônia, gerando graves problemas ecológicos e da população amazônica. Essas e outras tantas atitudes contribuíram para a situação conturbada na qual Lula e todo o Brasil enfrentam.
Após o impeachment de Dilma realizado em 2016, Lula então ex-presidente da república e forte candidato para ser reeleito em 2018, foi preso após diárias e violentas manipulações executadas pela mídia nacional. Essa prisão foi conseqüência também, das alianças e atitudes errôneas da ex-presidenta Dilma e por corrupções do próprio presidente. Entretanto é importante ressaltar que a sua prisão foi determinada ainda sem provas jurídicas suficientes. Em um país em que se compram sentenças, ações, decretos e se constroem provas, a Justiça se torna parcial e sua autenticidade é comprometida e fragilizada.
Por meio de uma herança escravocrata – que gera e reproduz ódio, insatisfação aos pobres e aos grupos minoritários da sociedade – qualquer visibilidade ou lugar de fala dada à essa parcela da população é automaticamente sufocada. Não tem sido difícil notar, talvez de forma tardia, que essa repressão não se traduz apenas à corrupção momentânea ou à que se perpetuou dentro de um único partido político, mas ela está enraizada no processo histórico do país, processo este de golpes militares, censura dos meios de expressão e de todas as formas de calar um povo.
O desejo da burguesia não está apenas em levar vantagem e possuir maior lucro ao explorar os desfavorecidos economicamente, mas em garantir que isso se perpetue. O anseio é de definitivamente liderar e não oferecer nenhuma condição ou oportunidade aos pobres, pois por experiência histórica, sabe-se que, em uma sociedade capitalista, só se obtém lucro pela exploração e desvalorização dos menos favorecidos. Essas informações históricas afirmam por si só que a democracia até hoje não é aceita pela elite nacional. Afinal, em um país verdadeiramente laico, livre e democrático, a repressão ousaria existir?
Vargas e Lula não são mártires nem vítimas. Seus interesses econômicos, acordos e privilégios dados à burguesia, incluindo os próprios enquanto líderes, não excluem seus feitos, assim como seus atos corruptos não eliminam todos os projetos, programas, auxílios, leis e inclusões sociais realizadas por estes líderes, para o proletariado, e isso é incontestável. As ações são reais e foram usufruídas por quem necessita delas.
Vemos que a história é um ciclo, reinventa-se, mas também se repete. A escravidão, Lei Áurea, a democracia, a ditadura, as eleições, a intervenção militar, todos integrantes de um ciclo, de uma cadeia, social, política e econômica que se traduz no povo, nas lutas. As situações narradas aqui, são um recorte feito através de um espectro subjetivo do que tem sido a história nacional, história esta que pode sim ser mudada. História esta que, apesar de todo o seu desenvolver pautado segundo interesses oligárquicos, em calar, oprimir e explorar, nos move e faz jus ao lema “brasileiro não desiste nunca”. A repressão persiste entre nós, porém a força de um povo, que se une que anseia por um mesmo objetivo é maior. O povo faz a nação, e os repressores não passarão.

