Ideias são à prova de balas
Vivemos em um país democrático, onde as pessoas têm o direito e o dever de eleger os próprios governantes por meio de eleições universais. Foi assim, através do voto de 46.502 cidadãos, que Marielle Franco assumiu o cargo de vereadora do Rio de Janeiro-RJ. Mas qual a mensagem passada para a população brasileira quando uma vereadora eleita democraticamente é brutalmente assassinada no caminho para casa?
O assassinato de Marielle foi um ato político. As pessoas que encomendaram a morte da vereadora queriam calar a mulher forte que lutava para proteger e exaltar aqueles que foram silenciados durante toda a história do Brasil. Negros, mulheres, pobres e homossexuais são minorias pouco representadas no cenário político brasileiro e que, além disso, têm seus direitos negados diariamente. São minorias não no sentido quantitativo, mas no sentido de participação política e de ausência de voz ativa na sociedade brasileira.
Marielle Franco fazia parte dessas minorias e lutava por elas. Marielle era mulher, negra, bissexual e criada na periferia. A despeito das dificuldades, ela conseguiu concluir uma graduação em Sociologia e um mestrado em Administração Pública, ser eleita vereadora do Rio como a quinta mais votada e colocar na câmara de vereadores da segunda maior cidade do país a voz de todos os grupos vulneráveis que ela representava. Porém, a luta de Marielle foi interrompida por quatro tiros na madrugada do dia 14 de março de 2018.
Marielle Franco era a única mulher negra na câmara legislativa do Rio de Janeiro e, dentre os 55 assentos, apenas seis são ocupados por outras mulheres. O atentado à vida da vereadora é também um atentado contra a participação feminina e negra na política brasileira. Além disso, a legisladora, que era cria da favela da Maré, lutava pelo direito à dignidade daqueles que vivem nas periferias da capital carioca e denunciava com veemência os crimes cometidos contra os favelados por policiais que abusam do poder.
O que o assassinato de Marielle nos diz sobre a política brasileira? Nos diz que, em nosso país, quando se luta em prol dos direitos humanos, em prol da igualdade, por menos violência e corrupção, tentarão lhe calar. Tentarão lhe calar mesmo antes de você descobrir que tem voz, mesmo antes de você achar que chegará a um lugar de visibilidade. Vão calar aqueles que conseguiram chegar nesse lugar, como Marielle Franco, para que você ache que é inútil até mesmo tentar, para que você ache que é inútil lutar pelos seus direitos.
Entretanto, não podemos nos acovardar diante de ameaças, achar que nossa voz nunca será ouvida, achar que a mudança é impossível. Mudanças não acontecem sozinhas, acontecem porque aqueles que se incomodam com os modelos impostos lutam por elas. Marielle lutava por mudanças, e temos que nos lembrar dela não como mais uma que conseguiram calar, mas como mais uma que fez sua voz ser escutada. Temos que recordar de Marielle como uma força, para que não deixemos de lutar por um país no qual a voz da população seja valorizada.
Marielle queria dar voz política àqueles que são marginalizados, mas que constituem a maioria da população. Queria mostrar que o lugar do povo pode ser na política, que a maioria da nossa população deve se sentir representada dentro dos espaços políticos e que é um absurdo que um país no qual mais da metade da população é constituída por mulheres, não tenha uma representação equivalente no legislativo. Por mais que o assassinato da vereadora tente nos convencer do contrário, temos que continuar lutando por mais participação popular na política.
Quem matou Mariele? Essa pergunta permanece sem resposta, mas precisamos lutar por justiça e não deixar que se esqueçam, para que esse não seja mais um crime sem solução nos arquivos brasileiros. Marielle foi calada, mas não podemos permitir que isso nos cale também. Ao contrário, agora temos que gritar mais alto, porque a nossa voz é também a voz de Marielle.

