É tarde demais para me lembrar de você?
As memórias se distanciam cada vez mais, já não sei distinguir o fato da invenção. Na noite passada, você me entregava uma calça cor-de-rosa, chamativa, mas delicada. Era única. Mais um dos seus presentes que partiu junto a você. Hoje, não passa de um fantasma que me abraça quando teme desaparecer por completo.
Em nossas viagens, a brisa que abraçava meu rosto era confortável, eu era livre para ignorar as futuras preocupações que um dia teria, somente encarava a vista inquieta no centro da janela. Os resquícios daquele tempo se distorceram, pensar em você é sentir o vento rasgando minhas lembranças e se perdendo junto aos borrões que, em algum momento, já foram uma paisagem deslumbrante.
Ansiei tanto o encerramento, que continuo fixa no seu nascimento. A sua partida instalou um vazio que nunca deixou de me cercar. Tudo agora é tão difícil, o oxigênio que inalo já não é mais capaz de preencher meus pulmões. Sinto falta de acordar no escuro e acompanhar o surgimento do primeiro raio de sol. Agora, tudo é breu, o clarão é distante e me convenci que jamais vou alcançá-lo de novo.
Saudade de caminhar a favor do tempo, cansada de enfrentá-lo. Nessa batalha, minha recompensa será o fim. Torço para ser uma prisioneira da minha própria vaidade, quero que tudo permaneça inalterado. Por que não podemos cantar por toda a eternidade sem perder a voz? Por que não podemos dançar por mais um segundo sem perder o ritmo?
No final, nunca estive tão próxima de você. Quando te olhei pela última vez, você era um pouco criança de novo, senti que compartilhávamos a mesma infância, você ria como se quisesse sorrir para sempre. Quando te toquei pela última vez, eu era um pouco adulta, senti que compartilhávamos as mesmas preocupações, eu te olhava como se quisesse te enxergar por toda a eternidade.
Você se foi e eu fiquei, todos que me cercavam pareciam não ter mais cor. Pela última vez, eu era uma calça cor-de-rosa escondida entre as dezenas de casacos pretos.

