Até quando?
Estava sentada no sofá de casa, rolando o feed de notícias, quando uma delas me atingiu com a força de um soco no estômago. Uma jovem, de apenas 23 anos, foi estrangulada com uma braçadeira de plástico após recusar uma investida amorosa.
Por alguns instantes, permaneci imóvel, encarando aquelas palavras. A cada linha que lia, a segurança do meu sofá parecia desaparecer. Uma simples recusa, um gesto que deveria ser absoluto e inquestionável, foi o suficiente para se transformar em uma sentença de morte.
No entanto, a história que se desenrolava na tela não era apenas sobre aquela vítima em específico. A única diferença, desta vez, é o nome que ocupa as manchetes do dia. Amanhã, poderá ter outro nome, outra idade, outra cidade, Contudo a narrativa segue o mesmo roteiro cruel: ela disse não. E ele, incapaz de aceitar, decidiu que, se ela não fosse dele, não seria de mais ninguém.
É devastador perceber como ainda vivemos em uma sociedade que ensina homens a confundirem desejo com posse, amor com controle, afeto com domínio. Eles crescem acreditando que têm direito sobre corpos, vontades e decisões que nunca lhes pertenceram, alimentando a raiz do feminicídio.
Enquanto isso, a vida segue. A notícia ganha espaço por algumas horas. Corre pelos grupos, provoca indignação, gera algumas publicações de luto e discursos prontos, até desaparecer. Até ser esquecida e substituída por outro assunto qualquer. E, diante disso, resta a pergunta que nunca encontra resposta, mas continua ecoando: até quando?

