crônicas

O Santa Cruz volta a almejar grandes projetos e títulos no futebol

Um clube condenado ao sofrimento. Não por castigo divino, mas por vocação. O Santa Cruz não é time de vitórias fáceis, de títulos previsíveis, de roteiros óbvios. O Santa Cruz é novela das oito com final inesperado, é drama grego no Arruda, icônico estádio do clube, é lágrima com gosto de luta e esperança. E ainda assim – ou por isso mesmo – é eterno.

Na Série D, sim, na quarta divisão, onde os sonhos são vendidos a prestações e os gramados são de grama alta, em forma de coração partido. Lá está o Santa, vestido de preto, vermelho e branco, como se as cores da bandeira fossem também as cores do destino. O preto é o luto de cada derrota, o vermelho é o sangue que escorre no campo, a cada jogo e o branco é a fé que ninguém tira do torcedor tricolor.

Nem o tempo, nem o fracasso, nem a Série D. A torcida vibra cantando: “você diz que acabou, eu digo: nada mudou!”

Mas alguma coisa mudou. Há um cheiro novo no ar da Avenida Beberibe, no coração de Recife, capital de Pernambuco. É o cheiro da reconstrução. O Santa Cruz virou SAF (Sociedade Anônima de Futebol) sistema de sociedade em que o clube recebe investimentos de diferentes setores do mercado financeiro e não, isso não é o fim da alma. É talvez o começo de uma nova paixão. Vieram bons nomes, homens com chuteiras sujas e olhos brilhantes. Entre eles, Thiago Galhardo, capitão de um barco que aprendeu a não afundar.

O Arruda voltou a viver. E como vive. Trinta, quarenta, cinquenta mil corações latejam no concreto de cada jogo. A torcida tricolor não torce, ela reza. Cada gol é um milagre, cada vitória, uma ressurreição. Porque o Santa Cruz é isso: um clube que morre todo ano e renasce mais forte, feito fênix operária.
Nelson Rodrigues diria que o torcedor do Santa Cruz é um herói. E ele teria razão. Não herói de capa e espada, mas de sandália e radinho de pilha. De suor na testa e lágrima nos olhos. Gente simples, de alma gigante. Porque o Santa Cruz é o clube do povo, do chão rachado, da marmita no ônibus, da fé que cabe numa bandeira.

Há uma sinfonia linda hoje no Arruda: o time joga com a torcida, a torcida joga com o time. Há sintonia. Há esperança. O Santa Cruz, que já foi chamado de morto tantas vezes, hoje sorri em silêncio, como quem sabe que o futuro, ah, o futuro, ainda será vermelho, preto e branco.

E sim, um dia o Santa vai voltar à Série A. Não porque o futebol seja justo – porque não é – mas porque o destino não resiste a uma boa história. E nenhuma é melhor que essa: a do clube do povo, que resiste, que sangra, que ama, e que sempre, sempre, volta.

João Vitor Santana
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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