A pequena Mel
Foi num dia de São João que ela apareceu pra mim. Como quem não quer nada, meio perdida, com cara de quem sabia muito bem o que estava fazendo. Uma possível sorte aquela pequena cachorra de pelos pretos ter me encontrado. Ou será que fui eu quem a encontrou? Até hoje não sei ao certo. Só sei que foi no dia de São João que ela chegou, e isso por si só já parecia sinal de festa.
Sempre vou rir do medo que eu tinha de cachorros. Um medo bobo, daqueles que a gente carrega sem saber muito bem de onde veio. Mas com ela… com ela foi diferente. Não houve susto, nem receio. Houve surpresa. Uma surpresa bonita, como quando a gente ganha um presente que nem sabia que queria. “Por que tenho medo dos outros e dela não?”, pensei. Talvez porque ela era tão pequena que cabia na palma da minha mão. Seu latido era quase um sussurro engraçado e as patinhas pareciam feitas de algodão. Ela não era como os outros cães que eu conhecia.
A vida tem dessas: a gente pensa que tudo é acaso, mas começa a desconfiar que certas coisas vêm mesmo com endereço marcado. Tem o nascimento, o primeiro dente, o primeiro amigo, o primeiro amor… e o primeiro bicho de estimação. Ah, isso muda tudo. Os horários, os hábitos, as manias, até a luz da casa muda. Nunca pensei que uma cachorra pudesse mudar tanto a vida que eu conhecia, mas ela mudou.
E foi a pequena cachorra de olhos cor de mel, pelos pretos e orelhas grandes que virou o centro dos dias na casa da família Ribeiro. Meu pai, foi aquele que vivia dizendo que “nunca vai ter cachorro nesta casa”, mas foi justamente o primeiro a se render. Bastou um encontro de olhar que ela conseguiu morada em seu coração.
Depois fui eu. Eu, a caçula. A mesma que, até ontem, trocava de calçada quando avistava um vira-lata. Naquela noite de São João, ouvi o choro dela no quintal e, sem pensar, levantei, a busquei e coloquei entre os lençóis da minha cama. Dormimos juntas, como velhas amigas que se reencontram depois de anos.
Na manhã seguinte, claro, veio a bronca. Papai resmungou, mamãe desaprovou. Mas ninguém teve coragem de tirá-la dali. A verdade é que, mesmo sem saber, todos já estavam um pouco apaixonados por aquela intrusa.
Seis anos depois, a Mel ainda está conosco. Dorme na cama, a dela e também na dos outros, quando bem entende. Tem uma cadeira só pra ela na mesa da cozinha, ele é da família.
Na véspera do meu aniversário o sentimento de algo ruim me cercava, foi quando ouvi um barulho vindo da rua. Mel quis atravessar a rua, dessas vontades que cachorro tem quando a gente menos espera, e um carro a atropelou. Passou direto, sem parar, sem olhar pra trás. Mas calma, ela sobreviveu, mesmo eu achando que isso não iria acontecer e dia 03 de dezembro seria sempre lembrado por isso e não mais pelo meu aniversário. Chorei como quem perdeu o chão. Foram dias difíceis, mas ela voltou e com ela a alegria que parecia ter saído da casa com o barulho do carro.
Hoje corre pelas roças que ela ama. Fica de tocaia esperando a comida cair no chão. Odeia os moços da internet que sobem no poste. Gosta de observar a rua com meu pai, como quem cuida da vizinhança. Ama gente. Ama criança. E me ama, acho que disso tenho certeza.
Mel não é só a cachorra da casa. É uma melhor amiga. Foi ela quem chegou num São João qualquer e, desde então, acendeu em nós a fogueira do amor que não precisa de palavras, e é verdadeiro.

