O menino e a água de Deus
Eu estava parada no caixa eletrônico de um banco, distraída, esperando minha mãe. A fila, o barulho das máquinas, as pessoas apressadas — tudo parecia comum, até que o vi. Um menino corria em volta do balcão.
Não era a primeira vez que o encontrava. Na verdade, já o havia visto inúmeras vezes, sempre por ali. Às vezes, ele me pede moedinhas. Quase nunca tenho para dar. Quando posso, retribuo o pedido com algum doce ou lanche esquecido no fundo da mochila.
O cenário é sempre o mesmo: ele, ao lado da mãe e da irmã — um bebê de colo — parados em frente ao banco. A rua, o fluxo dos carros, a rotina impassível da cidade, e eles ali, imóveis diante de tudo.
Naquele dia chovia. Mas o menino parecia alheio ao tempo — sua energia corria solta como se fosse verão. Muito bem cuidado, vestia um casaco e um par de chinelos. E corria. Corria como quem tem um mundo inteiro para descobrir.
Num instante, parou. Sozinho, embaixo da chuva. Ergueu os braços para o céu e abriu a boca. A mãe, aflita, talvez com medo de que ele pegasse um resfriado ou algo pior, chamou-o de volta para debaixo da cobertura.
E então ele respondeu, com a simplicidade desarmante de quem ainda não aprendeu a duvidar:
— Mãe, tô com sede. Tô tomando a água de Deus! Foi Ele que mandou.
Fiquei ali, parada, observando. Um encanto e uma tristeza se misturaram dentro de mim. O menino corria, e eu apenas assistia, sem saber o que fazer com aquilo tudo.
Depois, segui meu caminho. Mas ele continuava correndo — entre a chuva, os gritos da mãe, e a água que, para ele, era divina.

