crônicas

Mãe duas vezes

Com a testa franzida, lábios inferiores projetados formando um bico que se assemelha a uma criança birrenta, Vovó Gildete recosta o avental de pano quadriculado na boca do fogão enquanto mexe a panela de mingau de milho que seu neto tanto pedira naquela tarde fria de setembro. Ela sabe que ele tem mãe, e sabe que é costume da família deixar os filhos para serem cuidados pela avó enquanto os pais e as mães trabalham fora. E mesmo exausta, bastante furiosa de ter que cuidar de tudo aquilo que não é sua obrigação, ela o faz. Faz o mingau que o único neto menino que ela tem pede a ela com um sorriso de cara lavada e olhos brilhantes. Apesar de todos se assustarem com sua expressão carrancuda, a velha sabe que o filho mais novo da sua filha mais velha é apegado a ela, e sabe que ele não a enxerga como a louca da casa amarela assim como outras crianças que a veem vigiar a rua pela fresta da janela da frente da casa 16. Para ele, ela é apenas a sua avó— mãe duas vezes— como ela prefere se auto-intitular.

— Vovó, o Mingau tá pronto?
— Menino, você tem mãe. Vai encher o saco dela, vai!? — Ela diz com uma voz de quem fuma a mais tempo do que se pode contar e um olhar cansado de quem lutou sozinha durante todos os dias da sua vida.

Sozinha porque, no caso da infância dela, não teve mãe. Esta havia desaparecido após dar à luz à bebê em Jordânia, Minas Gerais, muitos anos antes de se casar com o pai dela. Os motivos ninguém sabe. E o pai dela não tardou em arranjar uma nova esposa que não gostou muito de Gildete, ou melhor, Janete, assim como era seu nome de batismo. Por isso, decidiu mudar-se da casa do seu pai para a casa dos seus avós aos 10 anos de idade, e com 12 anos decidiu trabalhar para a filha da vizinha dos seus avós, devido ao falecimento dos 2. Enquanto morava de favor na casa da mulher que se chamava Alba em Vitória da Conquista, Bahia, ela foi, finalmente, registrada em cartório, mas com o nome diferente do que por muitos anos a chamavam. Nascia agora Gildete, a doméstica, como a chamavam. Mas não durou muito, preferiu tentar a sorte e ir para a Capital do Estado, Salvador, juntamente com a melhor amiga de Alba. E deu certo por longos 4 anos, até ela perceber que a cidade grande, a praia e o calor eram muito mais um fardo que um lar. Preferiu voltar para Vitória da Conquista, onde teve o primeiro contato com quem futuramente ela chamaria de “marido”, mas não ainda. Primeiro precisava voltar ao seu estado, Minas Gerais, agora para Belo Horizonte, ainda como doméstica. Lá, trabalhou de garçonete enquanto morava em uma kitnet até conseguir voltar ao seu emprego habitual. Não deu certo, tivera que voltar para Conquista onde realmente tinha oportunidades para ela, ou ao menos um esposo. E logo reencontrou Eujácio, aos seus 17 anos e ‘amaziaram¹’ juntos devido a uma gravidez indesejada. Beatriz, o nome da pequena.

Seria uma linda história de superação se não fosse pela morte prematura da primeira criança do casal. E decidiram que não teriam mais filhos, não depois de sofrer pela morte da sua bebê. Neste caso, Deus— ou seja lá o que prefira acreditar— pensava diferente. 1 ano depois, Gildete deu a luz a Shirley, batizada com o nome da professora que ensinou Gildete a juntar as letras, uma das poucas coisas que aprendeu na escola. E depois deu a luz a Charles e a Sheila, que receberam nomes de atores famosos da época. Gildete deixou de trabalhar de doméstica para outros e passou a cuidar das 3 crianças que ela tinha trazido ao mundo e um homem que fora muito mimado até os seus 47 anos, com o qual ela decidiu oficializar os votos de casamento alguns anos depois, mesmo após uma traição e uma 4º filha extraconjugal.

— Daniel! Vem buscar!— grita Gildete para chamar o neto que está sentado no sofá da sala mexendo nos CDs do avô.

Ele corre até a cozinha, senta na cadeira apertada entre a mesa e a parede que cria um canto escuro atrás da porta dos fundos, onde ele e ela sentam-se para aproveitar este momentos juntos.

Amaziar ¹: expressão do Sudoeste da Bahia cujo significado se refere ao ato de juntar-se a alguém sem vínculo matrimonial.

Daniel Sena
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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