crônicas

As mulheres deste solo

Quem diria que o lugar que hoje é o país do futebol, um dia foi capaz de impedir que ele fosse praticado? Mas só pelas mulheres, é claro. Não era esporte para mulher, ameaçava a natureza feminina. A prática do futebol feminino que já era rechaçada pelo preconceito, virou proibição em 1941, silenciando o som do apito inicial, que por décadas não ecoou em campos dominados por elas. Não porque eram poucas ou não tinham talento, mas porque as barreiras eram maiores que seus direitos.

Jogavam nos mesmos campos que os homens, chutavam a mesma bola, as redes se movimentavam na mesma intensidade, até o grito de gol era o mesmo. Mas mesmo assim, elas não podiam jogar. Deviam prezar pela sua saúde para que pudessem gerar filhos para a pátria Brasil. Mas prezando também pela sua liberdade e paixão, nunca deixaram de lutar para pôr abaixo as muralhas invisíveis de uma lei, entre inúmeras outras, que as impediam de viver seus sonhos.

Assim tiveram que criar sua própria maneira de jogar bola. Em jogos de várzea, nas ruas, onde não eram veementemente proibidas. Com o que quer que fosse usado como bola, vestiam-se como homens, jogavam à noite, mudando o curso da corrida quando eram avisadas da chegada da polícia. Algumas vezes eram detidas, mas logo liberadas. E como acontece em campo, acreditaram na vitória até o último segundo, driblando a proibição como quem dribla a zaga: com coragem, ginga e a certeza de que alcançariam o resultado final tão desejado.

Finalmente, a revogação da lei, em 1979, permitiu que os gramados e as arquibancadas voltassem a presenciar não só a graça feminina, mas também o talento das mulheres de chuteiras, dispostas a mostrar o futebol que sempre esteve com elas.
Ainda tímido, em passos curtos, o futebol feminino foi ocupando o espaço que sempre foi seu. Mesmo tantas vezes diminuído, segue gigante. Neste solo tão fértil para talentos, o maior esporte do mundo carrega também as marcas da resistência.

Se não tivesse sido escondido debaixo do tapete da história, talvez hoje fosse maior, mais celebrado, mais reconhecido. Mas, ainda assim, é muito, por tudo o que já foi negado. As mesmas mulheres que um dia vestiram uniformes reaproveitados da seleção masculina, hoje entram em campo cobertas de orgulho. O orgulho delas, o da torcida e o de todas que vieram antes, aquelas que nunca puderam jogar, mas que sonharam esse sonho por elas. Correndo, driblando, fazendo gols e escrevendo, enfim, a história que sempre mereceram. Porque o futebol feminino, agora, é visto. E mais do que visto: é celebrado. Como deveria ter sido desde sempre.

Crislaine Prado
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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