crônicas

Nós, mulheres, exigimos demais ou os homens não fazem o mínimo?

Era um sábado de manhã. Estava eu, as vozes da minha cabeça e uma playlist só com as melhores do Frank Ocean lavando o banheiro da minha casa, até que surge no meu celular uma notificação de um cara bonitinho e não muito desconhecido no meu Instagram.

“Além de bonita, você tem bom gosto pra música.”, dizia a mensagem que recebi.

Pra quê mais? Falou do meu gosto musical, já me ganhou na lata. Foi assim que Daniel surgiu na minha vida, com um simples comentário. Ele não morava mais na mesma cidade que eu, mas tínhamos muitos amigos em comum — esses logo me fizeram um dossiê de tudo que sabiam sobre ele. Um metro e oitenta, ruivo, futuro médico, bom namorado e também bom ex-namorado. Bonito, tinha carro, estiloso e algumas outras qualidades que eu mesma pude comprovar.

Depois de sábados e mais sábados conversando, ele finalmente veio me visitar. Por conta da logística, tivemos problemas para decidir o lugar: era sexta-feira santa e nós queríamos beber cerveja. Não havia muitas opções abertas no feriado. Acabei optando por um bar que já conhecíamos. No horário exato marcado, ele já estava na minha porta. Muito bonito, cheiroso, arrumado e com um sorriso no rosto.

Quando chegamos, não percebi nenhuma movimentação autodidata da parte dele. Eu escolhi a mesa, chamei o garçom e também pedi nossas bebidas.

“Tenho certeza que até ficar sentado no meio-fio conversando com você seria legal.” Foi o que ele me disse uma vez.

Particularmente, concordo muito com ele. Conversar comigo é legal. Entretanto, com ele… não tanto assim. Todas as minhas expectativas foram frustradas. Como pode alguém falar tanto sobre si mesmo, fumar tantos cigarros em um intervalo curtíssimo de tempo e não conseguir elaborar ao menos uma pergunta direcionada à pessoa que estava ali diante dele?

Infelizmente, isso não é particular de Daniel. Com o passar do tempo, nos meus bons anos solteira e saindo com alguns lindos rapazes (outros nem tanto), percebi que o esforço não mais existe. Eles podem até escolher o lugar, fazer questão de te ver, te dedicar boas músicas, mas não passam disso.

Uma vez, enquanto assistia à série Fleabag, me deparei com uma cena em que uma senhora dizia que nós, mulheres, passamos por muita dor dentro do nosso próprio corpo: menstruação, parto, menopausa.

Os homens, não. Eles precisam criar guerras, fazer barulho, gritar, pra sentir alguma coisa.

Nós sentimos a dor da sociedade. Somos obrigadas a nos comparar umas com as outras. Precisamos estar sempre bonitas, interessantes e saber conversar sobre diversos assuntos. Os homens? Não. Eles podem ser superficiais, fazer o mínimo, sem muita ou nenhuma destreza, e ainda assim, se acham merecedores do prêmio. E muitas vezes, esse prêmio somos nós: as belas e inteligentes mulheres. E o que recebemos? Migalhas.

Carol França
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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