crônicas

A crônica de Bárbara

Bárbara não é uma pessoa fictícia, mas poderia ser. Porque toda sala de aula tem uma pessoa como aquela criatura murmurenta, diante da fala do professor, do colega que pergunta demais ou até da chinela que arrasta sobre o silêncio da sala e que desfoca a atenção de todos. Murmuração a define.
Bárbara não grita, ela murmura. Esse é um tipo mais elegante de protesto, mais pacífico. Um “vixi” aqui, um “aff” ali, um olhar de canto que diz mais do que trinta artigos científicos.

Mas o deboche dela é quase poético, não é raiva de verdade. É um tipo de ironia que veio com ela ao mundo, talvez herdada da sua avó ou de uma novela mexicana. Tudo vira motivo para uma reação sarcástica: o professor que atrasa, o colega que pensa que seu carro é um grande navio, a cada resposta de um imbecil;a lista de presença que demora.

E ainda assim mesmo com toda a sua bipolaridade, lá está ela ajudando no trabalho em grupo, emprestando a caneta com a cara de “você de novo?” Mas sempre ajudando o próximo, porque Bárbara é uma pessoa que tem o coração debochado, mas ele é enorme.

E quando alguém exagera em alguma fala, ela explode, e logo depois volta ao normal. Cinco minutos depois, já está perguntando se você quer um arroz doce, como se nada tivesse acontecido anteriormente. Como se o mundo fosse uma mistura de irritação e gentileza, tudo no mesmo pacote.

Sua mãe é técnica em enfermagem. E talvez por isso, a menina carrega um tipo especial de cuidado nos gestos. Um cuidado disfarçado, que não se entrega fácil. É aquela do tipo que reclama de você, mas fala bem de você. Que briga com você, mas avisa que a prova foi remarcada.

Ela é doce, só que com limão por cima. Como aqueles doces que enganam na primeira mordida, mas que no fundo têm alma boa. E no fim da aula, quando todos já estão exaustos e alguém solta uma pergunta absurda, ela solta um suspiro dramático que resume tudo: “Ah não, gente!”. Bárbara levanta e tchau!” para mais uma aula problemática. Um dia se foi, e agora? Será que Bárbara está preparada para os murmúrios de amanhã? Pois, enquanto gente chata ali existir, a Bárbara vai reclamar aqui! “Aff”.

Antony Rodrigues
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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