O Lar da Misericórdia em Vitória da Conquista: acolhimento e transformação
por: Daniel Sena, Heloísa Amorim, Luísa Silveira e Vivian Costa

O abandono social é uma realidade que afeta milhares de brasileiros, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade, agravada pelo uso abusivo de substâncias ilícitas, transtornos mentais e doenças que limitam a sua capacidade cognitiva. Esses fatores contribuem para o isolamento, a exclusão e a invisibilização de pessoas que mais necessitam de atenção, acolhimento e acesso a políticas públicas. Sensibilizado por essa realidade e motivado pela frase bíblica sobre altruísmo: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele.” João Paulo de Oliveira Souza, de 42 anos, fundou o Lar da Misericórdia, uma organização de serviço social de natureza filantrópica, sem fins lucrativos, que atua de forma autônoma em relação ao Estado, sustentando-se por meio de doações espontâneas, parcerias e trabalho voluntário. A instituição tem como intuito abrigar pessoas em situação de risco social, priorizando aquelas em processo de vulnerabilização por transtornos psíquicos ou abandono familiar. O Lar da Misericórdia promove ações voltadas para reintegrar socialmente os acolhidos, oferecendo suporte psicossocial e acompanhamento técnico para ajudar no desenvolvimento da autonomia dos internos. Dessa forma, a organização contribui com a efetivação dos direitos sociais e amplia a rede de proteção para as 13 pessoas que moram no Lar da Misericórdia.
EXTRA!Ordinário: Como iniciou o projeto do Lar da Misericórdia?
João Paulo de Oliveira Souza: Foi um processo bem demorado, fomos conhecendo pessoas em situação de rua através de um grupo de jovens, que fazia trabalhos voluntários. E nessa convivência com essas pessoas foi se criando um laço de amizade e nascendo o desejo de ajudar de uma maneira maior do que somente o ato de cuidar deles na rua. A gente se sentia satisfeito de estar ajudando o outro e também de vê-los recebendo essa ajuda. Mas não era o bastante, né? Então nasceu o sonho de ter uma casa que pudesse acolher aqueles que precisassem. Assim, nasce o Lar da Misericórdia.
EXTRA!Ordinário: O Lar da Misericórdia surgiu por conta de um grupo de jovens, de que igreja?
João Paulo de Oliveira Souza: Surgiu com um grupo de jovens da Paróquia [Nossa Senhora] de Fátima e logo aconteceu um movimento de pessoas da própria igreja católica, de pessoas de outras igrejas, e de pessoas sem denominação religiosa. Pessoas com uma motivação moral ou espiritual, juntas, com o intuito de ajudar o próximo.
EXTRA!Ordinário: Tem a imagem de Santa Dulce dos Pobres aqui na parede da frente desta casa. Qual a relação da organização com a Santa?
João Paulo de Oliveira Souza: A instituição não tem uma ligação tão grande com a Santa, pelo menos não quanto se imagina diante do legado da irmã Dulce. […] Acontece que em 2020, estávamos em outro endereço na Avenida Brumado, então veio a pandemia e a gente estava assustado com toda aquela situação do contágio. Na casa eram 26 pessoas vivenciando a quarentena e este espaço ainda não existia. Havia irmãos que saíam e não podíamos acolher de volta, e pessoas que nos procuravam e a gente não podia acolher. Então nos emprestaram esse lugar e ficou o mesmo nome “Lar da Misericórdia”, mas pela canonização da Irmã Dulce coube nomear de “Lar da Misericórdia – Casa Irmã Dulce” para diferenciar os dois endereços. Depois entregamos a antiga casa e esta continuou com a inspiração na caridade e no legado dela.
EXTRA!Ordinário: Quais são os suportes que a organização oferece para os acolhidos?
João Paulo de Oliveira Souza: Ofertamos aquilo que está ao nosso alcance. Abrigo, alimentação, roupas, o básico. Além dos cuidados na área da saúde, para pessoas que têm demanda psiquiátrica, a gente encaminha pro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou para o Centro Municipal de Atenção Especializada (CEMAE) e também assistência jurídica quando necessário.
EXTRA!Ordinário: Existe uma colaboração com outras instituições?
João Paulo de Oliveira Souza: Com o tempo surgiram laços com outras ações, nós conhecemos outras instituições, e vai acontecendo uma troca. Principalmente com ajuda das pessoas, uma assistência, não financeira. A nossa convivência é no sentido da partilha, tudo o que nós recebemos, nós compartilhamos.
EXTRA!Ordinário: Como é a equipe do Lar da Misericórdia? São voluntários ou pessoas contratadas?
João Paulo de Oliveira Souza: No começo nós não tínhamos recursos financeiros para pagar ninguém, então contávamos com o serviço voluntário das pessoas. Mas hoje, nós temos aqui cinco pessoas que antes eram apenas voluntários, mas agora são prestadores de serviços com remuneração.
EXTRA!Ordinário: Quais são as principais fontes de financiamento do Lar?
João Paulo de Oliveira Souza: O Lar começou a ser mantido apenas por doações, sem qualquer vínculo com o poder público. Com o passar do tempo, alguns moradores passaram a receber auxílio e aposentadoria, sendo que cerca de 70% desses valores são utilizados de forma coletiva, enquanto os 30% restantes ficam reservados para as necessidades individuais. Além disso, uma outra fonte de recurso é o projeto ‘Amigo Nota 10’, que convida as pessoas a contribuírem com R$10 mensais para as despesas da casa.
EXTRA!Ordinário: Você consegue separar o trabalho da sua vida pessoal?
João Paulo de Oliveira Souza: Dediquei cinco anos da minha vida morando na instituição, até que ela conseguisse se estabilizar e ter recursos próprios para se manter. Ainda não me afastei totalmente, mas já faz um ano e meio que praticamente não durmo mais aqui, pois preciso cuidar da minha mãe.
EXTRA!Ordinário: Como vocês lidam com os acolhidos que enfrentam dependência química?
João Paulo de Oliveira Souza: No início, tínhamos uma casa onde os moradores de rua passavam apenas a noite e, durante o dia, muitos voltavam a consumir álcool. Adotamos como princípio a ideia de acolher, amar e cultivar, pois acreditamos que é essencial estar aberto para ouvir e cuidar dessas pessoas. Com o tempo, percebemos que alguns moradores demonstraram o desejo de superar a dependência, mas acabavam sendo influenciados por aqueles que ainda não estavam prontos para essa mudança. Diante disso, entendemos a necessidade de oferecer um espaço mais estável, um verdadeiro lar, onde pessoas em condições mais equilibradas pudessem reconstruir suas vidas com mais serenidade. Por isso, há cerca de dois anos, decidimos não acolher mais pessoas em situação de dependência química, buscando preservar um ambiente mais harmônico para todos.
EXTRA!Ordinário: Existe uma boa convivência entre os acolhidos?
João Paulo de Oliveira Souza: Sim. O lar só funciona até hoje porque, apesar das dificuldades, conseguimos criar um sentimento de pertencimento entre eles.
EXTRA!Ordinário: Algum acolhido já passou por uma grande mudança de vida?
João Paulo de Oliveira Souza: Tivemos um jovem que casou, tem dois filhos, conseguiu comprar um carro e, atualmente, faz um curso técnico. Mas também lidamos com realidades difíceis. Muitos não conseguem se reintegrar ao mercado de trabalho devido a transtornos mentais ou à dependência química. Hoje, dos 13 acolhidos que vivem conosco, 9 ainda não têm condições de voltar à sociedade.
EXTRA!Ordinário: O que você aprendeu com as pessoas que foram acolhidas pelo Lar da Misericórdia?
João Paulo de Oliveira Souza: É bom ter alguém que cuide da gente. Quando não temos ninguém cuidando ou olhando para nós, a gente se sente muito sozinho e abandonado.
O Lar da Misericórdia é uma entre muitas organizações de serviço social espalhadas pelo Brasil. Essas instituições nascem e se mantêm graças a compaixão, solidariedade e senso de humanidade daqueles que, movidos pelo amor ao próximo, dedicam seu tempo e coração a causas maiores, à vida. O Lar é um exemplo de que o cuidado deve ser dado a todos aqueles que precisam, que com amor ao próximo e comunhão é possível acolher e transformar vidas.
Se você deseja contribuir com a missão filantrópica do Lar da Misericórdia, pode ajudar com doações, trabalho voluntário ou divulgando o projeto. Para mais informações sobre como apoiar o Lar da Misericórdia, entre em contato pelo Instagram (@lardamisericordia) ou do pelo telefone (77) 98817-8050. Qualquer gesto, por menor que pareça, faz uma grande diferença para quem mais precisa.

