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A identidade trans e os mitos do gênero

por: Cris Viesa, Clara Kosilek, Davi Teixeira e Rian Borges

O professor universitário Anderson Cunha de Araújo, 51 anos, durante palestra realizada em 2018 sobre comunicação, imagem e filosofia. Foto: Focos de Pesquisa

A transexualidade ainda é alvo de muita discussão e preconceito no Brasil. Há 16 anos, o país lidera o ranking mundial de assassinatos contra pessoas trans, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Para grande parte da população brasileira, trata-se de uma vivência ainda pouco compreendida, o que contribui para a estigmatização e a exclusão dessas pessoas.

Com o objetivo de compreender melhor as raízes históricas das construções de gênero e os caminhos possíveis para a afirmação da identidade trans, ouvimos o professor Anderson Cunha de Araújo, graduado em Filosofia pela Universidade Estadual Santa Cruz (Uesc) e mestre em Cinema pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Na entrevista, ele aborda aspectos biológicos, sociais e culturais relacionados ao tema, trazendo uma reflexão profunda sobre os desafios enfrentados pela população trans no Brasil.

EXTRA!Ordinário: Quais são as raízes históricas da construção binária de gênero e como esse modelo se consolidou socialmente?
Anderson Cunha de Araújo:
Do ponto de vista filosófico, as raízes da constituição binária de gênero estão relacionadas ao que a gente chama de binarismo. Historicamente, as representações, mesmo no ocidente, não eram binárias. Mesmo na Grécia clássica, a gente tem, de certa maneira, outros lugares em relação a homens e mulheres. O que acontece é que a partir de uma certa posição dos filósofos gregos – principalmente a Escola Socrática: Sócrates, Platão e Aristóteles – começou-se a ter uma concepção relacionada ao binarismo como uma marca da produção do conhecimento e da constituição social dos indivíduos tanto homens quanto mulheres. O Platão chegou a afirmar, numa discussão com o Aristóteles, que as almas eram femininas, mas elas incorporavam em corpos masculinos e femininos de forma diferente. Existia um certo decaimento em relação à presença de uma alma em um corpo feminino. Tem toda uma discussão em relação a isso em um texto que está no livro ‘’História das Mulheres no Ocidente’’, em seu primeiro volume. Então, em relação a isso, esse primeiro ponto é que essa discussão se deu a partir dos filósofos gregos, dos socráticos.

EXTRA!Ordinário: Em que momento da história passamos a ver o gênero como algo limitado ao masculino e feminino, e quais interesses sustentam essa visão até hoje?
Anderson Cunha de Araújo:
A partir, principalmente do período clássico, a gente tem essa discussão, mas ela se funda muito mais fortemente a partir da Idade Média. Na Idade Média, o interesse da Igreja de se manter padrões muito restritos entre homens e mulheres, e principalmente em relação a uma visão do que era a família, de certa forma manteve-se essa discussão em cima dos dogmas da Igreja Católica. E eles também recuperaram as visões clássicas de filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles e outros para referendar essa discussão.

EXTRA!Ordinário: Existem estudos que indicam alguma base biológica ou neurocientífica para a transexualidade?
Anderson Cunha de Araújo:
Por muito tempo se teve uma discussão, meio que patológica, em relação a uma série de orientações e diversidade sexual que fugia da norma, ou que fugia daquela que era imposta como norma. Então, a gente teve, durante muito tempo, estudos que tentavam biologizar a relação homossexual, tanto de homens como mulheres, e em relação à transgeneridade. A homossexualidade vai sair do CID – Código Internacional de Doenças, de psicologia, só na década de 80, 90 e a transexualidade saiu oficialmente neste ano de 2025, do CID. Se entendia transexualidade como disforia de gênero, com questões relacionadas a isso. Essas questões relacionadas à disforia acontecem também com pessoas cis, com pessoas bi, não binárias, com pessoas trans. Eu não considero isso como uma condição psicológica da transgeneridade. É uma dimensão que aparece de certa maneira em todo momento. Os estudos tendem a perceber que essa dimensão não há nenhuma base, nem psicológica, nem neurocientífica em relação à transexualidade, em relação à homossexualidade, nem em relação a outras orientações, que de certa maneira fogem da norma.

EXTRA!Ordinário: A identidade de gênero pode ser influenciada por fatores sociais, culturais ou ambientais?
Anderson Cunha de Araújo:
Existe uma base biológica, as pessoas nascem com uma determinação biológica. Algumas nem nascem com uma determinação biológica tão fixa. Tem pessoas que têm genitália ambígua, uma série de determinações, e não são poucas pessoas. Normalmente, o gênero é determinado no nascimento a partir da genitália. É o médico ou a médica, a pessoa que está fazendo ali os procedimentos que determinam o gênero daquele sujeito na hora do nascimento. Se tiver uma genitália ambígua, ele não vai ser determinado tão facilmente assim. Mas, mesmo essa determinação, que é uma estrutura biológica, ela vai se dar na sociedade de forma muito mais complexa. Papéis relacionados a homens e mulheres nas sociedades mudaram muito, mudam de sociedade para sociedade mesmo no nosso tempo. O que é ser mulher no Brasil não é a mesma coisa que ser mulher na China, ou no Afeganistão, ou em um país como a Nigéria, na África. Então, esses papéis de homens e mulheres são muito cambiáveis, são determinados pela sociedade que os sujeitos habitam. Então, homens e mulheres, que a gente chama de papel de gênero na sociedade, é determinado pela própria sociedade, o que é ser masculino e feminino e essas raízes. E esse modelo, de certa forma, tende a ser muito binário, ainda influenciado por aquelas questões relacionadas ao mundo ocidental. Mas na nossa sociedade ocidental, eles levam em consideração isso. Em outras sociedades, existem outras expressões de gênero, que têm 20, 30 expressões que vão fora do binômio masculino e feminino.

EXTRA!Ordinário: A prostituição ainda é uma das únicas alternativas de sobrevivência para muitas pessoas trans e travestis. Como chegamos a esse cenário?
Anderson Cunha de Araújo:
A gente tem que primeiro perceber a prostituição enquanto caráter não moralista. Temos que pensar que a prostituição sempre ocorreu em diversas sociedades e essas pessoas sempre foram marginalizadas ao longo do tempo. Também, para a sociedade grega, você tinha o que a gente chama de prostituição sagrada. Então, é, pense em uma dimensão que existem prostitutas e prostitutos sagrados, essa dimensão ela está muito mais ligada a um lugar de destaque na sociedade do que como é hoje em dia, como a prostituta, na nossa sociedade é inferiorizada, é colocada de lado. Ela não é vista. A primeira coisa que a gente tem que pensar é isso. Claro, na nossa sociedade que esses sujeitos são marginalizados, pessoas transexuais acabam sofrendo uma dupla marginalização. Por quê? Porque são normalmente afastadas da família muito cedo, a partir do momento que elas se identificam como transexuais, normalmente são expulsas de casa. Existe uma série de estudos que colocam que as pessoas transgêneros sofrem, não terminam o ensino médio e que normalmente são afastadas das suas casas, expulsas pelos seus pais a partir da adolescência, entre 12 e 14 anos. Claro, isso depende muito do lugar, da dimensão, mas é isso mais ou menos o tradicional. Como elas são expulsas muito cedo de casa e como elas são mal-vistas pela sociedade, sofrem preconceitos pela sua condição transgênera e quando não têm uma formação para o mercado de trabalho dito formal, dito comum, muitas delas buscam a prostituição como uma forma de se manterem, principalmente inicialmente. Mas não significa que elas só têm a prostituição, muitas saem da prostituição, vão fazer outras coisas, tem transexuais hoje com carreira política nacional, você tem diversos exemplos disso, você tem mulheres com outras dimensões. A prostituição acaba aparecendo nesse momento como uma forma delas se manterem vivas. Então, é essa dimensão muito importante da prostituição. A prostituição não é um lugar de acolhimento para essas mulheres, mas acaba sendo a única forma de renda real.

EXTRA!Ordinário: De que forma o preconceito estrutural contribui para a marginalização dessa população?
Anderson Cunha de Araújo:
Há uma forma de preconceito estrutural na nossa sociedade que, claro, todas as relações, lembre-se, todas as relações, existe uma estrutura, existe um dogma que coloca que as relações saudáveis na nossa sociedade são relações reprodutivas. Logo, todas as relações não colocadas como reprodutivas estão fora do binômio de interesse da sociedade, desse modelo heteronormativo que nós vivemos. Essas pessoas que fogem à norma sofrem preconceitos estruturais. Claro, elas são desincentivadas a todo momento a não assumirem esse local de marginal à sociedade, marginal à norma que a sociedade impõe. São pressionadas a sempre seguirem a norma, mesmo não se identificando com a norma. Não só as pessoas trans, mas as pessoas homossexuais, mulheres lésbicas, mulheres que não querem ter filhos, uma série de dimensões acabam, de certa maneira, sofrendo preconceito. Claro que pessoas trans sofrem preconceito de diversas maneiras na sociedade e acabam, claro, marginalizando muito mais essas mulheres e colocando elas em risco na sociedade. Mulheres trans têm uma expectativa de vida muito baixa por uma série de fatores, tanto em relação à questão da vulnerabilidade social como a relação da prostituição, que elas se colocam no risco, quanto à impunidade em relação aos casos de violência contra mulheres trans e quanto a falta de escolaridade, de educação, de projetos de saúde para essas mulheres em quase todos os lugares e cidades do país. Então, isso coloca essas mulheres na alça de mira para elas serem assassinadas, violentadas, silenciadas e escondidas da sociedade. Então, existe uma estrutura. Por outro lado, a gente pode colocar também que é uma coisa meio psicanalítica, que existe toda uma pulsão de nojo, mas também uma pulsão de desejo na nossa sociedade. Existe esse lugar de desejo em relação às mulheres trans e esse lugar é sempre um lugar que esvazia o sentido dessas mulheres. Elas estão sempre colocadas como se fossem ligadas à prostituição e a sociedade não permite vê-las em outros lugares, não quer vê-las em outros lugares. É sempre uma relação muito doentia em relação a esse desejo que não percebe que as mulheres trans podem estar em outros lugares na sociedade.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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