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Sobreviver

por: Elival Santos, Patrícia Rocha, João Vitor Santana, Rafael Pinheiro, Raí Barbosa e Vanessa Sena

Iara Santos segurando a sua filha no colo. Foto: Vanessa Sena

Iara Santos, de 35 anos, mãe de três filhos, casada, moradora da cidade de Vitória da Conquista-BA, é uma dessas sobreviventes. Ela enfrenta diariamente os desafios impostos pelas ruas da cidade, mas segue resistindo. E mesmo quando o mundo se mostra severo demais, ela encontra mãos que a ajudam a se manter firme. Com coragem, tem feito das “tripas coração” para garantir o pão de cada dia.

A presente entrevista propõe uma reflexão sobre as várias mazelas da insegurança alimentar, com foco nos enfrentamentos diários que a falta de recursos impõe às famílias brasileiras, tudo isso a partir da trajetória de Iara, que representa tantas outras vozes silenciadas.

Extra!Ordinário: Conte-me um pouco sobre a sua história.
Iara de Jesus:
A vida para quem mora de aluguel nunca é fácil. Eu tenho 3 filhos contando com ela (a bebê). Tenho dois meninos gêmeos de cinco anos e ela de nove meses. E nunca é fácil para quem paga aluguel. Eu pago 500 reais de aluguel. Pego o dinheiro num dia, quando é na mesma hora eu tenho que depositar pra dona da casa. Aí vem alimentação, vem água, vem luz, vem gás, tantas coisas, e a única forma que eu achei foi pedir ajuda das pessoas. Tem pessoas ruins, mas também tem muita gente de coração bom.

Extra!Ordinário: Então pra você não é só uma questão de receber o valor, é uma questão de que as necessidades são muitas e fica difícil pra você conciliar tudo isso?
Iara de Jesus:
Isso mesmo, eu pego o dinheiro do auxílio, aí eu pago 500 reais de aluguel, aí nunca é suficiente o que eu ganho pra dar por mês todo, aí a única forma que eu acho é de vir pedir ajuda das pessoas. E tem meu esposo que me ajuda bastante, ele é ajudante de pedreiro, e ele sempre me ajuda a vender bala na Olívia, ele me ajuda bastante.

Extra!Ordinário: Você já passou por algum tipo de dificuldade que você queira compartilhar?
Iara de Jesus:
Já sim, no final de outubro, eu fiquei devendo o aluguel para a moça, porque meu esposo estava com um problema de visão muito sério, ele teve que usar óculos. Nesse tempo, a dona da casa não quis entender de jeito nenhum, ela nos deu um prazo de 24 horas pra gente sair da casa dela. Aí a gente teve que desfazer de muita coisa, como sofá, geladeira. Tivemos que deixar muita coisa na casa de minha cunhada, ela mora de aluguel também. Aí, em um quartinho pequeno, a gente colocou só o necessário, que foi as coisas de neném, as roupas dela e nossas coisas. Ficamos um bom tempo assim, em hotel. Com isso, todo dia eu tinha que correr atrás do dinheiro pra pagar um hotel até eu pegar o dinheiro do auxílio para alugar outra casa. Teve uma vez que eu não consegui arrumar o dinheiro do hotel. Nesse período a gente teve que dormir no CEASA, com minha bebê de três meses de vida, ali perto dos banheiros, em um negócio de madeira que tem, que o pessoal vende artesanato, prato de barro, panela de barro. Dormimos lá e, graças a Deus, a gente tá aqui hoje.

Extra!Ordinário: Você já sofreu algum tipo de preconceito?
Iara de Jesus:
Teve uma vez que um rapaz passou e cuspiu em mim, mas eu não falei nada, eu só olhei pra cima e pedi força a Deus, que foi a única forma que eu encontrei. Não xingo, não faço nada, só peço a Deus, que é o único que pode socorrer.

Extra!Ordinário: Você considera que a sua alimentação fornece todos os nutrientes necessários à saúde?
Iara de Jesus:
Certeza que a gente tem os nutrientes que precisa, a gente nunca tem, né? Porque eu como quando eu ganho, aí eu levo pros meninos e pro meu esposo. O café da manhã a gente se vira do jeito que pode, quando tem o suco a gente toma, se não tem o café a gente não toma. É assim, a gente vai se virando do jeito que pode.

De acordo com os últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em março de 2024, aproximadamente 21,6 milhões de brasileiros vivem com algum grau de insegurança alimentar. Regiões como o Norte e o Nordeste destacaram-se. Além disso, segundo o último Observatório Brasileiro Das Desigualdades, divulgado em 2024, 12,5% das mulheres negras estão em situação de insegurança alimentar moderada ou grave.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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