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A dor do luto: como processar e lidar com a perda de um ente querido

por: Bianca Neves, Crislaine Prado, Nathan Carmo, Samily Silva, Vitor Galdino

Juliana Pimenta Aguiar, psicóloga da clínica Sensi, atua no cuidado de pacientes em tratamento terminal. Foto: Bianca Neves

O mistério que cerca a morte vem carregado de medo, e manter-se desconectado desse acontecimento pode ser uma solução momentânea para se proteger dele. Embora encarar o luto seja um processo desafiador e doloroso, é fundamental vivenciá-lo para que seja possível assimilar e adaptar-se à nova realidade. Juliana Pimenta Aguiar, de 62 anos, é formada em psicologia e foi a segunda profissional a se especializar em psico-oncologista em Minas Gerais. Começou a estagiar no seu primeiro semestre da faculdade de Psicologia no Hospital do Câncer, em Belo Horizonte e, agora, com 37 anos de profissão, atende pacientes em estado terminal.

EXTRA!Ordinário: Por que você escolheu trabalhar com pacientes terminais?
Juliana Pimenta:
Eu vou te responder com toda a sinceridade: não sei. Eu entrei para a faculdade de Psicologia para trabalhar com pacientes com câncer. Até então, não tinha tido ninguém com câncer na minha família, e nunca tinha trabalhado com nada parecido. Juro para você que eu não sei te explicar o porquê. Mas, depois que entrei para a faculdade e, principalmente depois que me formei, tudo ao meu redor passou a girar em torno disso. Quando comecei a fazer estágio no Hospital do Câncer, em Belo Horizonte, ainda no primeiro semestre da faculdade, a psicóloga que iria me acompanhar me entregou um caso de urgência logo na primeira semana. Ela olhou pra mim e disse: “Vai.” Eu respondi que não sabia de nada, que não estava pronta. E ela simplesmente disse: “Faz o que o seu coração te mandar fazer.” E eu fui. Então, não sei te explicar o que me levou para esse lugar, a única justificativa que eu tenho talvez seja espiritual. Durante o final da faculdade, eu estava muito insatisfeita com o hospital do INSS, era muito pobre, eu atendia sentada, ou na escadinha da cama, ou no pátio do hospital, porque não tinha sala para atendimento. Não tínhamos material. A gente não tinha nada. Então, comecei a questionar se era isso mesmo que eu queria e fui conversar com uma pessoa que na época era uma espiritualista, não uma espírita, mas uma estudiosa, e que dizia receber algumas informações do anjo da guarda dela. Eu nunca fui espírita, mas fui conversar com ela e, na hora da saída, ela virou pra mim e disse: “Meu anjo da guarda me disse para você continuar fazendo o que está fazendo, a sua história é essa mesmo, você veio ao mundo foi pra isso.” Eu nunca tinha conhecido uma psicóloga na vida, não sabia o que era psicologia, mas eu queria psicologia para trabalhar com pacientes com câncer. Pronto.

EXTRA!Ordinário: Como é o processo de lidar com o luto?
Juliana Pimenta:
Primeiro é preciso entender o que é o luto. O luto é uma reação emocional a qualquer perda, tanto de uma pessoa, quanto de um emprego, de um namoro, ou de uma bijuteria que era importante para você. Cada uma dessas tristezas é um tipo de luto, umas mais dolorosas que outras.
No livro Sobre a Morte e o Morrer, de Elisabeth Kübler-Ross, ela propõe cinco fases do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Essas cinco fases são didáticas, porque ninguém passa por elas de forma definida e em sequência, às vezes você passa pelas cinco no mesmo dia, às vezes você fica fixada em uma. Em outro livro, Elizabeth assumiu que talvez trocasse o nome do seu livro Sobre a Morte e o Morrer por Sobre a Perda e o Perder, porque qualquer perda gera esse tipo de sentimento. Afinal o que é o sentimento do luto? É principalmente a tristeza e, em alguns momentos, muita raiva. São os dois sentimentos mais gritantes. O luto é um processo, teoricamente, só de dor, mesmo que seja aquele luto muito bem trabalhado durante o período que está para acontecer. Em casos de pacientes terminais, por exemplo, a família e o paciente começam a vivenciar o luto a partir do momento em que há o diagnóstico, porque a iminência de morte já vem acompanhada do luto.

EXTRA!Ordinário: O tratamento psicológico é estendido aos familiares do paciente em cuidados paliativos?
Juliana Pimenta:
Dentro da psicologia, especialmente na psico-oncologia e, mais recentemente, nos cuidados paliativos, nós não trabalhamos apenas com o paciente, na maioria das vezes, trabalhamos com toda a família. Porque, embora o tratamento seja direcionado à pessoa doente, a verdade é que a família toda adoece junto. Então, já não existe mais aquela ideia de cuidar apenas de quem tem o diagnóstico. Muitas vezes, uma pessoa manifesta os sintomas, mas a “doença” está presente na casa toda. Nos cuidados paliativos, que costumavam ficar restritos à psico-oncologia, até alguns anos atrás, era entendido como o processo de ensinar a pessoa a morrer. Era isso que as pessoas falavam: “ensinar o povo a morrer”. Hoje, pelo contrário, o cuidado paliativo, que se aplica a muitas outras áreas, busca dar qualidade de vida para quem está passando pelo processo de morte. Não é uma forma de fazer com que a pessoa aceite que vai morrer. É fazer com que ela viva. Que ela viva bem o tempo que tem de vida.

EXTRA!Ordinário: Como você trata a família do paciente no processo pós-morte?
Juliana Pimenta:
Em alguns casos, os familiares pedem para que o atendimento continue. Quando perdemos alguém não há nada que precise ser dito, a maior ajuda que você pode dar para um enlutado é deixá-lo falar sobre o que está sentindo. Então, se você ficar ao lado de um enlutado durante duas horas, apenas escutando ele falar, sem dizer nada, você já está ajudando essa pessoa. Existem casos de enlutados com muita raiva, e, nesses casos, é preciso entrar com outras dinâmicas. É comum que o enlutado sinta raiva, especialmente no luto surpresa, como em casos de acidente, suicídio ou infarto. Esse tipo de luto é mais difícil de ser elaborado, porque você não teve tempo de se preparar para ele. No luto por doenças, você tem tempo para trabalhar isso; no luto surpresa, você não tem a iminência da morte. O que nós podemos fazer é estar ao lado, mostrar-nos presentes e disponíveis. É o que qualquer ser humano pode fazer pelo outro em um momento de luto.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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