Esquecidos pelo tempo, acolhidos com amor: os dias e as histórias na Casa Asilar São Camilo
por: Talita Oliviero, Flávia Mota, Lucas Tavares e Manuela Lopes

Com o aumento da longevidade na expectativa de vida entre a população idosa no Brasil, também há o aumento dos desafios enfrentados por esse grupo. O abandono de idosos ocorre de diferentes formas, como a afetiva, por exemplo, ou quando os responsáveis deixam de dar a devida assistência e cuidados ao idoso.
A Casa Asilar São Camilo, localizada no município de Barra do Choça – BA, acolhe, atualmente, cerca de 26 idosos. Foi idealizada no ano de 2019 por Ana Lúcia Oliveira Trindade, assistente social, que, em seus anos de atuação, presenciou a negligência de famílias, chegando a presenciar idosos cuidando uns dos outros. A atual presidente da casa compartilha sobre sua experiência e os desafios enfrentados por quem cuida dessas pessoas quando elas não podem mais cuidar de si mesmas.
EXTRA!Ordinário: Como surgiu a vontade de montar a São Camilo?
Ana Lúcia: Na verdade, a São Camilo surgiu diante de algumas visitas que a gente costumava fazer no domicílio de alguns idosos, né? E, aí, eu percebi a necessidade de ver que os idosos precisavam de ter um cuidado mais especial, mais dedicado, de vinte e quatro horas. E, aí, às vezes sofrendo, porque, às vezes, um familiar não podia cuidar, morava fora, os filhos iam trabalhar fora, ficavam sendo cuidados por outros idosos. E uma série de “questões” que eu presenciei, e a gente era um grupo! Eu convidei esse grupo a me ajudar a fazer a casa dos idosos, a construir! A criar, quer dizer, que não ainda é construção própria. Aí, nós montamos e fizemos a equipe e aí eu criei a casa do idoso: a Casa Asilar São Camilo.
EXTRA!Ordinário: Quando foi que surgiu? Em que ano?
Ana Lúcia: Foi em novembro de 2019.
EXTRA!Ordinário: Como é feito o encaminhamento desses idosos para vir para cá?
Ana Lúcia: Pelo CREAS, o CRAS, e pelo Ministério Público. Muitas vezes também, familiares, quando o idoso está cuidando de outros idosos, não tem condições, a gente faz a visita na luz direitinho, e existem os casos que a gente pode, sim, estar ajudando.
EXTRA!Ordinário: No caso, agora, a Casa Asilar tem uma sede própria ou é alugada?
Ana Lúcia: Não, é aluguel, essa casa aqui é alugada. Nós estamos em busca de ajuda, de recursos para a gente dar para eles a casa própria, mas ainda não conseguimos.
EXTRA!Ordinário: A Casa São Camilo sobrevive como, hoje em dia, financeiramente falando?
Ana Lúcia: Então, a Casa São Camilo, ela é administrada com o benefício dos que tem, que nem todos têm, outros tem por metade, né? Que a lei diz que a gente pode usar 70% do benefício para a instituição e 30% para o idoso. Então, os que têm o benefício completo, a gente administra dessa forma. E os que não tem, que é metade, a gente, pede doação, e o que não tem vai sendo ajudado pelo que tem e vamos vivendo.
EXTRA!Ordinário: Atualmente, vocês recebem doações de muitas pessoas aqui da cidade?
Ana Lúcia: Não, não. Muito pouco. É muito pouco mesmo a doação! Nós temos o empresário João Henrique. Todo mês ele faz a doação dele e ajuda muito mesmo. A gente tem muita gratidão a ele. Por ter esse carinho pelos idosos. Mas temos também mais dois empresários que também ajudam. Mas é… Pelo tamanho do município, é bem resumido as doações.
EXTRA!Ordinário: Como é para você, Ana, estar à frente desse projeto?
Ana Lúcia: É uma responsabilidade muito grande.E as pessoas falam que é só eu mesmo para ter essa coragem. Mas diante da situação e o que eu vejo, que eles estão cuidados, a gente faz de tudo para dar o melhor para eles, para eles ter um conforto, né? Tem aquela atenção de medicamento no horário certo, a alimentação! Tem as cuidadoras, as meninas que ficam dia-a-dia com elas. Mas eu estou à frente na administração. Então, assim, desde quando eu percebo que 26 idosos estão sendo cuidados vinte e quatro horas, eu só tenho gratidão a Deus por ter me dado essa coragem, esse dom, de estar aqui junto com os cuidadores e mães. É só gratidão mesmo.
EXTRA!Ordinário: Como é a rotina deles aqui? Vocês têm atividades para lazer, como pintura, alguma coisa lúdica?
Ana Lúcia: A gente tem dentro da própria equipe, não tem específico, né? Às vezes, é voluntário das faculdades, vêm das escolas, técnico de enfermagem. Algumas instituições que têm conhecimento na estrutura, vem fazer o voluntário com uma atividade física, fazer uma pintura. Vêm o pessoal que tem os projetos sociais cortar cabelo, e o nosso dia-a-dia é assim, uma vez por semana, uma vez por mês. E o dia a dia deles é pela manhã às 6 horas da manhã, começa é banho, é medicamento, né? Uma fruta antes do almoço, almoço, aí faz o lanche a tarde, depois vem a janta. Às 10 da noite tem um café, para aqueles que são diabéticos que precisam estar mais acompanhando a alimentação certinho, e aí a gente vai por aí.
EXTRA!Ordinário: Nesses anos aqui dentro, tem algo que te marcou demais, alguma coisa que você gostaria de destacar?
Ana Lúcia: A ingratidão de muitos, que passavam por aqui. Entendeu? Muitas pessoas ingratas, que a gente tem feito de tudo pra ajudar. E aí, o que mais marcou aqui pra mim foi a ingratidão de pessoas que eu acolhi aqui, pra ajudar também. Nem só idosos, como cuidadores também, que eu acolhi quando me procurou, ajudei. E hoje ficaram contra mim com ingratidão, prejudicando o projeto de uma forma bem difícil mesmo, mas a ingratidão pra mim hoje em dia tá sendo abraço, eu tô recebendo e resolvendo.
EXTRA!Ordinário: E alguma coisa positiva? Alguém que você conseguiu ajudar, que foi muito grato, algo que você tenha olhado e seu coração tenha esquentado.
Ana Lúcia: Tem as coisas boas, né? Muitas, têm pessoas que agradecem, que falam muito bem, que ajudam, que visitam. Mesmo que o interno não esteja mais aqui, já se foi, até mesmo pra outra vida, mas que elas voltam, agradecendo, perguntam assim: “como está lá?” Então eu tenho uma gratidão também pelas pessoas que agradecem por ter passado por aqui.
EXTRA!Ordinário: A gente vê que vocês têm bastante trabalho aqui, que vocês se desdobram pra cuidar de tudo,o que você acha que que as pessoas de fora podem fazer pra ajudar vocês aqui dentro?
Ana Lúcia: Na verdade, aqui as pessoas precisam ser mais parceiros, entender que aqui é um projeto social sem fins lucrativos. Então, eu vejo que as pessoas precisavam ser mais companheiros, entender, vir visitar pra estar ajudando, sendo parceiros, sendo voluntários. A questão da doação, como vocês mesmo me perguntaram, é pouca pelo tamanho do município. Tem pessoas que acham que aqui tem dinheiro, que aqui tem recurso, não tem, não tem. Aqui nós temos muito Deus e força de vontade. Então falta isso, falta a população chegar, fazer parte desse grupo e vim ajudar, vim visitar, mas com boa intenção, críticas produtivas. E não pra vim pra criticar, pra prejudicar, porque demandas, trabalho, dificuldade, nós já temos.
EXTRA!Ordinário: E se alguém quiser se voluntariar, o que a pessoa precisa fazer?
Ana Lúcia: Precisa vir até aqui, procurar as tendas sociais, fazer um cadastro de voluntário e agendar o dia que é possível, tá fazendo esse voluntariado.
Casas como a Casa Asilar São Camilo são alicerces para idosos e suas famílias, sendo ambientes onde eles podem ter um refúgio e serem bem cuidados quando sua vulnerabilidade impede que eles mesmos possam fazer isso. O cadastro de voluntários pode ser feito na própria Casa Asilar São Camilo, através das tendas sociais, onde o voluntário agenda o dia em que irá se disponibilizar.

