entrevistas

O grito dos que não dão voto: a memória como abrigo para quem a sociedade já esqueceu

por: Kamile Cardoso, Carol França, Gustavo Sena e Enzo Boa Sorte

Hermes Andrade – Presidente do Instituto Abrigo Lar Terceira Idade, 75 anos e 12 anos de atuação na instituição. Foto: @abrigolarterceiraidade

No Brasil, envelhecer com dignidade ainda é privilégio. A realidade das instituições de longa permanência mostra que muitos idosos enfrentam abandono, ausência de políticas públicas efetivas e carência de recursos. Em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, o Abrigo Lar Terceira Idade sobrevive entre doações, afetos e esforços silenciosos de quem transforma cuidado em missão. Nesta entrevista, Hermes Andrade, de 75 anos, atual presidente da instituição, fala sobre os desafios da gestão, as histórias que o marcaram e o que ainda falta para garantir respeito a quem tanto já viveu.

EXTRA!Ordinário: Como começou sua relação com o abrigo e há quanto tempo atua na instituição?
Hermes Andrade:
Há 12 anos. Comecei como doador anônimo. Ajudava financeiramente sem nem ser conhecido. Com o tempo, me envolvi cada vez mais, até que, quando a presidente precisou se afastar por motivos de saúde, assumi a presidência. Me senti na obrigação.

EXTRA!Ordinário: Como foi o processo de assumir a presidência do abrigo?
Hermes Andrade:
Foi por necessidade mesmo. A antiga presidente, Luzinete, que foi essencial para reconstruir tudo aqui, teve que sair. Estava tudo regularizado, mas sem direção, o funcionamento trava. A gente precisava manter a casa funcionando. Aceitei o cargo por responsabilidade.

EXTRA!Ordinário: Atualmente, quantos idosos vivem no abrigo?
Hermes Andrade:
Temos 13 idosos. A capacidade total é de 24, mas alguns quartos ainda estão sendo usados como depósito e administração. Quando a nova área for concluída, poderemos receber mais.

EXTRA!Ordinário: Como é feita a seleção dos idosos que passam a viver no abrigo?
Hermes Andrade:
Hoje seguimos critérios mais rigorosos. Antes vinham por indicação da Casa do Andarilho, mas agora fazemos visitas [nas residências], avaliamos a situação, conversamos com a família. Só acolhemos quando há real necessidade. É uma decisão difícil, mas às vezes [trazê-los para cá] é o único jeito de garantir que o idoso continue vivo.

EXTRA!Ordinário: O que acontece no dia da chegada de um novo morador?
Hermes Andrade:
A gente faz uma pequena festa. Coloca balões, música, prepara mimos. Tudo pra que ele se sinta acolhido. Também damos banho, arrumamos o cabelo, levamos para almoçar fora. É o nosso jeito de mostrar que ele importa.

EXTRA!Ordinário: Como vocês organizam o controle de medicamentos?
Hermes Andrade:
Cada idoso tem sua medicação separada, com nome, foto e os horários de uso. A enfermeira deixa tudo pronto e as cuidadoras entregam. Funciona como em hospital. Também temos o histórico de saúde de cada um documentado.

EXTRA!Ordinário: Em situações de emergência, como vocês procedem?
Hermes Andrade:
Chamamos o SAMU. Eles têm um bom relacionamento com a gente, conhecem nosso trabalho e atendem com cuidado. Levar o idoso por conta própria seria muito mais difícil e arriscado.

EXTRA!Ordinário: Muitos dos idosos ainda mantêm contato com familiares?
Hermes Andrade:
Poucos, a maioria foi abandonada ou tem família que não visita. Alguns até dizem que têm filhos ou irmãos em outros estados, mas ninguém aparece. A gente escuta. Às vezes, é a única coisa que eles ainda têm: a fala.

EXTRA!Ordinário: Como vocês lidam com moradores diagnosticados com Alzheimer?
Hermes Andrade:
Com paciência. Tem idosa que come e, minutos depois, diz que está com fome. Bebe água e esquece. Outros escondem comida no guarda-roupa, por medo de faltar. Já achamos maçã, bolo, abacate. É preciso entender esses gestos com empatia.

EXTRA!Ordinário: E quando algum idoso se recusa a se alimentar ou a tomar banho?
Hermes Andrade:
A gente respeita o tempo dele. Tenta depois. Às vezes, barganha com uma xícara de café. É o jeitinho. Cada um tem o seu. Forçar não resolve. Eles já passaram a vida inteira sendo forçados.

EXTRA!Ordinário: Quantas pessoas trabalham na instituição hoje?
Hermes Andrade:
Temos 11 funcionários contratados com carteira assinada: cuidadoras, enfermeiras, cozinheiras, pessoal da limpeza. Não dá pra depender só de voluntários, porque voluntário vem quando pode. Funcionário tem compromisso.

EXTRA!Ordinário: O abrigo conta com apoio de voluntários?
Hermes Andrade:
Sim, mas em áreas específicas, como fisioterapia, estética, recreação. Temos uma educadora física que vem todas as terças e tem feito a diferença. Mas o mais difícil é encontrar alguém que doe tempo com constância.

EXTRA!Ordinário: Como vocês garantem a alimentação dos moradores?
Hermes Andrade:
A maior parte dos alimentos vem de doações. Quando falta, a gente compra. Fazemos controle diário e seguimos orientações da Vigilância Sanitária. Proteínas são o maior desafio. O que mais falta é dinheiro.

EXTRA!Ordinário: Por que a doação em dinheiro é tão necessária?
Hermes Andrade:
Porque com comida você não paga funcionário, nem imposto. Dinheiro é o que mantém a instituição funcionando. Muita gente pensa que doar é só levar uma cesta, mas o que realmente sustenta isso aqui é apoio financeiro regular.

EXTRA!Ordinário: Tem alguma história que marcou sua trajetória no abrigo?
Hermes Andrade:
A do galinheiro. Há uns 7 anos, construí um galinheiro pra garantir ovo e carne pros idosos. Era todo planejado: maternidade, bebedouro automático. Depois, quando precisamos ampliar a estrutura do abrigo, tive que autorizar a demolição dele. Foi difícil, mas necessário. Hoje temos um espaço muito melhor.

EXTRA!Ordinário: Como o senhor lida emocionalmente com essa rotina?
Hermes Andrade:
Separo o pessoal do profissional. Mesmo nos dias difíceis, dou meu melhor aqui. Eles merecem. Tenho 75 anos, também sou idoso, então entendo o que é essa fase da vida. Eu escolhi esse desafio.

EXTRA!Ordinário: O que ainda falta para garantir um atendimento mais completo?
Hermes Andrade:
Falta gente disposta a doar tempo. Todo mundo acha bonito, mas ninguém quer assumir compromisso. Essa é a doação mais rara que temos.

Interessados em visitar os idosos ou realizar doações podem se dirigir ao Abrigo Lar Terceira Idade, localizado na Rua 28, nº 46A, no bairro Conveima, em Vitória da Conquista, Bahia. Toda ajuda é bem vinda e faz diferença na vida dos que irão receber!

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


Acesse o site anterior.
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia