Os opostos não se atraem
No Brasil, há vários fatores que dificultam o debate político virtuoso na internet. Entretanto, aqui consideraremos os três mais proeminentes ao meu ver: as bolhas sociais; as fake news e as torcidas organizadas dos times de Coxinhas e de Petralhas que se alvoroçam na web. Há mais pontos, sem sombra de dúvidas. Porém, os aqui citados são os mais gritantes no meio cibernético, sobretudo nas redes sociais.
Talvez você esteja lendo esse texto porque está em uma bolha social. Sim. A verdade é que vivemos, quase sempre, sendo agraciados por onde navegamos com assuntos que nos são interessantes e que, geralmente, nunca serão contraditos. A regra é você navegar com o maior conforto possível, é ter contato com pessoas que pensam como você e que agem de maneiras parecidas diante das mais diversas ocasiões da vida, inclusive na hora do voto. A ideia é de uma navegação em mar calmo, de um ambiente sem, ou com pouca, oposição. Contudo, isso deve ser repensado.
Se somos na maioria das vezes contemplados na rede, isso só é possível porque todas nossas ações são filtradas por algoritmos. Essa linguagem dos computadores, grosso modo, são sequências lógicas de informações programadas que ditam para as máquinas quais tarefas executarem. Nas redes sociais, por exemplo, como o Facebook, isso é utilizado para filtrar todo conteúdo que postamos e que nossos amigos também postam. Se certas postagens não aparecem em nossos feeds, se certos memes, notícias, vídeos, etc., não são exibidos para nós, não é à toa. Significa que, por julgamento dessa filtragem, aquilo que não é mostrado para nós é exatamente aquilo que não queremos ver ou ouvir.
Forma-se, dessa maneira, uma enorme bolha com pessoas reafirmando suas convicções nas mesmas fontes e as compartilhando com outras pessoas que simpatizam com as mesmas posições. Uma avalanche de mesmices. Isso é desinteressante para a construção de debates, não só políticos. Tudo é fragmentado e polarizado. Não há opositores com ideias maduras e firmes, há inimigos. As discussões se resumem, na maioria das vezes, em querer ditar quem é Coxinha ou Petralha, se é Bolsonaro ou Lula, se é lado A ou B. Um caos que não permite que os olhares se guiem para outras análises. É como um cercado de pessoas que veem, ouvem e conversam sobre aquilo que concordam, com poucas possibilidades de encontrar o novo, algo que pudesse provocar uma mudança de opinião, por exemplo.
O problema não para por aí. No turbilhão de informações que é jogado na internet, surgem muitas colocações falsas que afetam o meio político. É bastante temeroso que pessoas em um país passem a validar suas posições políticas com base em notícias falsas e tendenciosas. Mas isso é possível e provável que já aconteça. O cenário passa a ser tomado pelas fake news. E se as fake news oferecem riscos para a política, isso se intensifica em ano de eleição, como é o caso de 2018.
Traduzido do inglês, de maneira literal, fake news significa notícias falsas. A maior atenção sobre esse assunto surgiu após as polêmicas eleições dos Estados Unidos, em que houve a alegação de que notícias com inverdades teriam colaborado com a vitória do presidente Donald Trump, em 2016. Mas sabemos que as notícias falsas existem há tempos. A propagação de mentiras não é algo novo. Logo, é preciso situar o termo no contexto em que vivemos. Não são apenas notícias falsas, são inverdades propagadas em um meio de difícil seleção que podem influenciar diretamente a opinião pública. Se considerarmos essa rápida propagação dentro de bolhas sociais, é possível dizer que a democracia estará em risco constante e infindo.
No Brasil, em meio a uma crise política e a polarização de ideologias, os extremos se alvoroçam. As notícias se espalham como muita facilidade, inclusive as falsas. Por isso podem ser perigosas, pois os eleitores não encontrarão aporte de informações claras sobre o cenário político e seus acontecimentos.
Manchetes do tipo: “Urgente: juiz Sérgio Moro recebe ameaça após condenar Lula e militares vão agir, confira!”, “Petista se suicidou ao saber de condenação de Lula”, “Vídeo mostra Marielle ‘defendendo bandido’”, “Marielle foi casada com o traficante Marcinho VP”, “Jair Bolsonaro criou projeto que prevê o Fim Do IPVA”, “Xuxa declara apoio a Jair Bolsonaro no Twitter”, são todas manchetes inventadas, carregadas de inverdades, que tomaram as redes sociais no Brasil nesse período. Todas representam um desserviço à democracia, visto que cada indivíduo pode exercer seu poder político. Entretanto, se baseado em informações falsas, grande parte desse direito será lesado.
É certo que investigar casos de fake news não é algo fácil. Chegar aos autores das publicações falsas é uma tarefa árdua, inclusive quando esses autores são robôs (os bots) programados para varrerem as redes. Mesmo assim, provável que, pelo caminho óbvio, surja a suposição de que a falta de firmeza nas leis que regem o mundo cibernético seja o grande problema. Todavia, é muito arriscado esse caminho, pois a criminalização poderia ser irregular.
Mais perigoso do que a disseminação de notícias falsas seria permitir que novas legislações sejam criadas para controlar a publicação de conteúdo na internet, o que pode fazer do meio um solo fértil para o renascimento da censura no Brasil. Interferir no direito de liberdade de expressão não é, com toda certeza, o caminho. O objetivo não é calar as vozes, mas fazer com que as vozes propaguem discursos que fortaleçam o debate político.
É difícil falar de controle Estatal na internet, um espaço democrático, em um país que o presidente, para conseguir seu atual cargo, precisou retirar a todo custo o posto de uma mulher eleita pelo povo, democraticamente. Um impeachment orquestrado (orquestra de instrumentos desafinados) com a justificativa das pedaladas fiscais. O intuito aqui, contudo, não é defender o governo de Dilma Rousseff . Muito além disso, é dizer que também não foi um mandato satisfatório, com muitas falhas, mas que nada justifica o fim que teve. Muito além, é abrir espaço para as discussões com ideias opostas, não só de dois lados, que corroborem com a democracia no país em que vivemos. É dizer que temos as eleições de 2018 já por perto e que precisamos olhar para o redor e interagirmos com as diferenças, desconsiderarmos aquilo que fere os direitos humanos e que nos calam, enxergarmos as minorias e abrir espaços para que tenham também voz, tudo isso sem a insegurança causada pelas fake news. É dizer que não precisamos do autoritarismo nos rondando, esperando a oportunidade para derrubar nossas posições (e que derrubaria esse texto).
Mesmo que o controle das fake news seja quase impossível, temos que concordar que, com o grande número de informações que nos é passado, torna-se difícil também a leitura com mais zelo e uma reflexão posterior do que foi lido. Tendo isso em vista, o próprio Facebook, com apoio da instituição de ensino Mackenzie, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) e do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, criou uma lista com 10 dicas que auxiliam na identificação de notícias falsas e a disponibiliza para os seus usuários. As dicas são as seguintes: 1) Seja cético com as manchetes; 2) Olhe atentamente para a URL; 3) Investigue a fonte; 4) Fique atento às informações incomuns; 5) Considere as fotos; 6) Confira as datas; 7) Verifique as evidências; 8) Busque outras reportagens; 9) A história é uma farsa ou é uma brincadeira? e 10) Algumas histórias são intencionalmente falsas. São estes dez pontos relevantes para ao menos diminuir a repercussão de inverdades.
Ainda que a culpa não seja de nós usuários, é preciso nos munirmos uma vez cientes dessa problemática. Mudar o nosso comportamento e adotar novas práticas diante esse cenário político deve ser prioridade para que possamos usufruir do nosso direito, dentro de uma democracia, da maneira mais proveitosa possível. Entender que não existe apenas os lados A ou B, que a discussão de Coxinhas e Petralhas é desnecessária e só colabora para os discursos de ódio, que os conteúdos na internet são filtrados. E enfim, construir de fato um espaço público em que temas de diversos interesses sejam debatidos com liberdade. Na situação que estamos, polarizados, as torcidas só fazem deixar vencer o autoritarismo, coisa que não rima com democracia e que nunca rimará.

