Intervenção para quem?
Pode acordar, Rio de Janeiro, que mais uma cortina de fumaça já surgiu! Em meio a temperatura sufocante da pré-votação da Reforma da Previdência e das Eleições 2018, a segurança da Cidade Maravilhosa passou para as mãos do General Walter Souza Braga Netto que assume o cargo até o dia 31 de dezembro deste ano. Nada menos que uma tentativa de esconder o fracasso que seria a votação da reforma, logo que ela colocaria em xeque a candidatura e possíveis reeleições de deputados e senadores.
Cariocas do meu Brasil segue a justificativa do presidente Temer dada ao G1: “é que o crime organizado quase tomou conta do Rio de Janeiro. É uma metástase que se espalha pelo país e ameaça a tranquilidade do nosso povo. Por isso, acabamos de decretar a Intervenção Federal da área da segurança pública do Rio de Janeiro”. E o crime organizado nas Corporações da Polícia Militar, senhor presidente? E a metástase da corrupção do Congresso Nacional? E o golpe da Reforma da Base Curricular? Também não merecem uma Intervenção?
Os turistas e cariocas andam assustados e temerosos com o número de soldados do exército no calçadão de Copacabana, contrapondo as pesquisas da Confederação Nacional dos Transportes (CNT/MDA), que indica que a Intervenção Federal tem 69% de aprovação. Mas quem são esses 69%? Generais? Burgueses? Uma população acrítica? Ou o conjunto de todos eles? O primeiro fim de semana com Intervenção Federal ganha a seguinte manchete da Uol: “RJ: 1º fim de semana sob a Intervenção tem recorde de tiroteios e mortes acima da média”. Já 18 dias após o decreto, a manchete que foi publicada no Esquerda Diário, é bem diferente da anterior: “Polícia invade baile funk na Rocinha e mata oito jovens”. Agora eu pergunto a você caro leitor: Intervenção para quem?
“Alô, moça da Favela”, lembra o mar de camisas verdes e amarelas que foram à Praia de Copacabana, em 2016, pedir o impeachment da presidenta Dilma? Não ficaria estarrecida se me dissessem que são os mesmos 69% que aprovaram a medida. Ou pior, que fazem parte dos mesmos 57% que apoiam a pena de morte no Brasil. Não sei, se fazem ou deixam de fazer parte, só sei que tudo isso nos remete à 1964. Primeiro, a gente livra o país de um “eventual golpe de esquerda”, como nas manifestações da Marcha da Família com Deus pela Liberdade que depôs Jango. Depois, instalamos um Golpe Militar com a justificativa de organizar o país. Por fim, nos livramos dos “comedores de criancinhas” e da senzala. A vida repete a história ou é a história que repete a vida?
O efeito inescrupuloso da Intervenção Militar irá recair sobre quem já vive há anos dentro de uma ocupação militar. Estou falando do Matheus Melo, que foi morto quando passava de moto próximo a uma patrulha da PM, no Jacarezinho; da Marielle, que foi assassinada após denunciar a truculência de policiais na Comunidade de Acari. Para ser mais clara: a ocupação militar tem lugar, gente, cor, raça e classe social demarcada. O terror tem sido fielmente garantido nos morros, onde a vida ninguém vê. Intervenção para quem, presidente?
Ninguém nunca lhe avisou, caro presidente, que não se faz sombra tampando sol com a peneira? Quero te dizer que não é apresentando uma junta militar de uma hora para outra que a população deixará de se assustar com os latrocínios. Não é com soldados preparados para matar que o narcotráfico irá acabar. Não é com uma ocupação militar que você esconde um governo deslegitimado. Não é com a Intervenção Militar que a Vossa Excelência irá esconder a Reforma da Previdência. Mas é apresentando uma junta militar que você consegue mostrar que reviveremos novamente 1964. Que reviveremos a repressão, o desaparecimento, a tortura, a falta de liberdade, principalmente, o medo de não viver o que ainda queremos viver.
“Cidade maravilhosa cheia de encantos mil, Cidade maravilhosa coração do meu Brasil […]”
A Cidade Maravilhosa, da canção de Caetano Veloso, necessita, Temer, de tudo o que nos foi negado: educação pública em tempo integral, pensada pelo Brizola na década de 60, mas que a oposição conseguiu demonizar tal projeto; do Sistema Único de Saúde (SUS) funcionando de forma eficaz e digna, sem deixar pessoas, diariamente, morrerem nos corredores dos Hospitais Públicos. Mas aprovaram a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do Teto que congela gastos por 20 anos. Precisamos de policiais que nos olhem como gente, que fiquem ao nosso lado nas lutas, que certifiquem-se antes de deflagrar tiros certeiros e acertar inocentes, mas você colocou pessoas preparadas para matar para lidar com a gente. “O Rio de Janeiro continua lindo… Pra você que me esqueceu-aquele abraço…”

