crônicas

A Lua Está Cada Dia Mais Brilhante

Tenho a impressão de que a lua me esqueceu. Quando eu era criança, meu olhar se prendia a ela pelo vidro do carro. Ela vinha comigo até em casa, parecia acompanhar o nosso trajeto e continuava a me olhar quando eu corria para a janela de casa. Era mágico.
Hoje, entro no carro e a paisagem mudou: a lua sumiu. Não está na janela, não está no retrovisor. Por um tempo, achei que não sentia mais o mesmo encanto, talvez ela tivesse mudado. Ou talvez, fosse eu.
Numa tarde qualquer, ela reapareceu. Por que voltou só agora? E por que, ao olhar, parecia exatamente como antes?
Talvez, eu que tenha deixado de reparar nela. Algo maior, mais urgente, ocupou minha atenção, uma pressa que hoje nem consigo nomear. Mas, a lua ficou: imóvel, brilhante, insistente. O que a prende ali? Será que o brilho mudou? Será que ela se ressente por eu tê-la esquecido?
Amanhã, prometi a mim mesma, vou chamá-la para viajar comigo. Não a deixarei para trás. Tenho pressa de reencontrá-la pela janela do meu quarto, de vê-la brilhar e sentir as velhas emoções. Quero que ela me encha os olhos de lágrimas, daquelas que aparecem quando algo volta a ser familiar e, ao mesmo tempo, inesperado.
Sento-me aqui e escrevo:
— A lua está cada dia mais brilhante.
É interessante… Não é só o seu lindo brilho. Ela me dá uma força silenciosa e me faz pensar, reavaliar pequenos pedaços da vida. Sinto-me viva de novo. Percebo que só compreendemos a ausência da felicidade quando a reencontramos. Quando uma alegria reaparece, sem que se saiba por quê, reconhecemos nela um espaço infinito: um instante em que nada nos derruba e tudo parece suficiente.
Amanhã, voltarei aqui e direi outra vez:
— A lua está cada vez mais brilhante.

Eloá Cirino
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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