Alianças
Há pouco mais de um mês, me mudei para uma linda casinha antiga, que fica no segundo andar, em um bairro afastado, que tem uma linda paisagem. Apesar de estar dentro da cidade, o lugar tem ar campestre. É arborizado com pinheiros e todas as casas possuem enormes quintais, e cada quintal é decorado à maneira do morador, alguns antecipadamente já arranjados para o Natal, com luzes, árvores e bolinhas de diversas cores.
Como uma amante fervorosa de mel que sou, não pude deixar de notar uma “casa do mel” naquela rua, principalmente pela sua delicada aparência. Eu já a havia visitado. Pertence à Senhora Elisabete que, em uma de nossas curtas conversas, me disse que era uma apicultora há muitos anos, produz o mel como um hobby, já que o dinheiro não faz falta, embora precise vender para ter mais espaço.
Mas há muitos dias, nas tardes em que aproveito para passar em sua loja, venho notando que Dona Elisabete costuma escrever cartas, deixando uma marca de batom, um selo feito de cera de abelha e um pequeno vidrinho de mel amarrado junto ao envelope. Sei disso porque já a vi muitas vezes com o sinete quente enquanto selava a carta, passando seu batom e beijando o papel suavemente. Sempre tive medo dela se queimar, mas não parecia que era um costume recente. Em uma dessas vezes, observei que no balcão havia um retrato de duas jovens. Uma delas claramente era Elisabete. Apesar da idade, dava para ver que ela teve a sorte de envelhecer muito bem. Mas o que me chamou atenção mesmo era que a casa onde eu morava aparecia ao fundo da foto, com as mesmas flores, pedras na faixada e grandes janelas, ornamentadas e douradas.
Dias se passaram e já não era mais novidade aquele costume, mas me surpreendia a sua pontualidade. Todos os dias, às quatro da tarde, Elisabete já estava selando suas palavras com tanto amor. Nesse tempo, eu já havia comprado muitas coisas na sua lojinha: mel, pães de mel, chás adoçados e outros derivados. Eu sempre admirava as embalagens, com recados escritos a mão, muito bem escritos. E todas as etiquetas tinham um desenho de uma linda caixinha igual à que havia em minha casa, mas nunca a abri.
Mas não me contive de tanta curiosidade, peguei a pequena caixinha perolada e levei para aquela senhora. Ela arregalou os olhos marejados com muita surpresa e me abraçou, um abraço apertado, dolorido, nostálgico. Mas que não durou mais que um minuto, pois ela estava mais ansiosa para abrir aquela pequena memória, que estava há muito tempo empoeirada. Ao abrir, descobri que aquela caixa guardava uma única aliança, simples e dourada, uma rosa ressecada pelo tempo, um vidrinho de mel e uma carta claramente fechada por Elisabete, apesar de estar aberta e com um enorme “sim” no fecho do envelope.
“Era um amor visceral, mas por muito tempo me escondi no medo”, soluçou minha mais nova amiga. “Pedi a ela que fugisse comigo, sempre há algum lugar, um lugar onde os dias poderiam ser mais tranquilos.”. Depois de horas ela me explicou que sua “amiga” vivia na mesma casa que eu, tocava piano lindamente, cheirava a mel e a jasmin pois Elisabete entendia de alta perfumaria e fazia questão de deixar aquela mulher a mais cheirosa possível. “Mas dona Elisabete, por que não ficaram juntas? Os tempos mudaram.”, questionei. “E nós ficamos, mas nunca tivemos a oportunidade de nos casar”, respondeu.
Ela me explicou sobre seu amor, explicou que em uma noite havia lhe entregue a caixinha, mas Lilian, sua amada, estava muito fraca para sair lá fora, então ela entrou e deixou ao lado do seu leito, mas nunca imaginaria que ela teria forças para aceitar o tal “pedido”. “Todos os dias eu escrevo cartas, todas para ela, pois me forçava acreditar que de algum jeito, seja lá onde esteja, eu iria receber um sinal… E eu recebi, recebi meu sinal”, sorriu. Colocou a outra aliança e guardou sua caixinha, me agradeceu e muito. Me aconselhou, disse que o medo é o pior inimigo em vida. Agora Elisabete faz aulas de piano, pois acredita que a música leva mensagens. Ela me deu respostas para o que eu nunca havia lhe questionado. Nunca entendi o que me levou a morar naquela casa, mas respostas vêm com o tempo, era o que Elisabete dizia.

