crônicas

O HOMEM QUE CHEIRAVA A FUMAÇA

Todos os dias, ao pegar o ônibus, em meio à uma diversidade de cheiros e perfumes diferentes, que são tentativas das pessoas que já estão acostumadas com essa rotina de praticamente uma viagem em um coletivo tão cheio de pessoas transformarem o ambiente levemente mais suportável com fragrâncias doces artificiais e de lidarem com os próprios odores. Contudo, tudo isso é quebrado pela entrada de um cheiro de cigarro que toma conta de todo o espaço por boa parte do itinerário. Nunca tinha visto seu rosto, não sabia, na verdade, nem se era um homem ou mulher e sempre me perguntava mentalmente: “Será se ele não percebe que está prejudicando os outros, especialmente quem tem algum problema?” Ao chegar no centro da cidade, o cheiro da fumaça se dissipa lentamente junto das inúmeras pessoas que desciam do ônibus, enquanto eu permanecia sentada, quieta, e logo seguia o percurso.
Contudo, nesta manhã, um homem desconhecido se sentou ao meu lado — assim eu descobri que era realmente um homem. Por ser de estatura grande, de mãos largas e pesadas, além do forte cheiro que ardia nos pulmões, e ocupava grande espaço, comecei a ter mais reclamações mentais enquanto o motorista dirigia: “Será se ele não percebe que está incomodando?” Porém, ele começou a tossir e isso mudou meus pensamentos. Era uma tosse pesada. Saia de forma sofrida e envergonhada de sua garganta, com esforço para tentar disfarçar. Ao mesmo tempo, ele tinha um olhar baixo direcionado para o chão o tempo todo, recusando-se a olhar os outros ao seu redor.
Um aperto no coração surgiu, ele percebia sim que podia estar incomodando, que todos dentro do ônibus sentiam seu cheiro carregado e denso, mas em comparação a mim, que me encontrava ao seu lado, quem sofria mais era realmente ele, com a sua tosse que devia estar machucando e sendo algo constante, a sua vergonha diante as pessoas e o pior de tudo, provavelmente essa fumaça já o consumiu por inteiro. O cigarro que, apesar os avanços no seu combate, a estigmatização do seu consumo persiste queimando a vida das pessoas até o último momento. E esse homem parecia sofrer com essa condição de forma silenciosa, retraída, consciente de sua própria condição e ainda sem conseguir superá-la.
Quando o ônibus fez sua parada no centro, como de costume, ele se levantou e saiu ligeiramente apressado, querendo sair dali o mais rápido que conseguisse, contudo, sem chamar mais ainda atenção, sem incomodar além do que sua presença poderia e finalmente conseguiu, indo embora junto de sua fumaça.
Permaneci no lugar e continuei o meu percurso quando o motorista saiu da parada, agora com um novo questionamento em mente: “Será se todos nós não percebemos os nossos vícios que prejudicam as pessoas ao nosso redor?” Porque, ao contrário do cheiro perceptível de um fumante, muitos dos nossos vícios não têm cheiro, sabor, visibilidade ou ainda nem existem no mundo material e conseguem afetar igualmente quem estiver ao nosso redor.

Fabiana Silva
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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