A casa de dona Joana
A pia cheia de pratos, e o pai cheio de desfazeres ou falta de afazeres. o chão cheio de pelo de gato, e poeira de dias. A única alegria, de fato, é o gato, que não percebe a família disfuncional que tem, regida pelo tempo, pelos traumas, pelas escolhas mútuas de mágoas e talvez, pela esperança de um futuro que se tornou falsa. Não sei o que é pior: a depressão ou o que ela causa nos demais. Todos são atingidos, acho que no fim, é um tipo para cada um. Um tipo de xingamento, de acusação, de lamentação e murmúrio para cada. Um chororô, brigas, palavras ofensivas. Risada nunca se acha, carinho quase nunca se tem, mas a risada realmente faz falta, a leveza, a infância, o prazer, a esperança… o lar. E o pior é que não se pode mais voltar, nem atrás, nem no tempo e desfazer, ou consertar. O que resta é encarar a vida real e não ideal: disfuncional. Às vezes cansa, lutar contra tudo o que se sente. Às vezes dá vontade de se render e não mais combater a montanha de pratos, de roupas, de piso para limpar, sabendo que amanhã estará tudo igual ou pior e ninguém será capaz de lutar com você. A sanidade se perde no meio da sujeira e acumulação, guardando recordações que nem alegram nem confortam, agora sufocam o ar e o espaço de andar pela casa, pisando no que há de bom dentro de si. Não sei desde quando é assim. Não sei se foi algum dia diferente. Sei que os moradores estão piores a cada dia, sem força e sem alegria de lutar pra viver. Gostaria apenas de saúde psicológica e menos pratos na pia. Essa é a casa da dona Joana, espero que, um dia, não seja.

