crônicas

Indagações Noturnas

Sou a última pessoa acordada do pronto-socorro. Sempre sou. Entre bipes de máquinas respiratórias e o corre-corre dos enfermeiros para colocar remédios nas veias dos pacientes, reflito sobre quem eu sou, ou quem eu era antes de estar aqui. É estranho como quando estamos no hospital simplesmente paramos. Paramos de nos preocupar com prazos, trabalhos, com o supérfluo, preocupações cotidianas e indagações noturnas. Meus amigos andam preocupados comigo, dizem que lembram dos meus gestos, piadas e sentem minha falta, também sinto a deles. Tento não ficar muito no celular para não me lembrar dos bons momentos e ficar ainda mais deprimida do que já estou. A enfermeira das três da manhã acabou de entrar no quarto, disse que iria colocar doses de Dipirona, Plasil e dois antibióticos. Meu acesso do braço esquerdo dói a cada remédio colocado em minha veia, fecho os olhos e logo a dor passa. Olho para frente e vejo minha mãe cochilando na cadeira de plástico a minha frente, o hospital está em falta de poltronas e até mesmo leitos para os pacientes. Sei que ao menor ruído ela vai acordar e perguntar se preciso de algo depois de 18 anos criando uma independência, de repente, aos 19, volto a ser uma criança que precisa da mãe, de ajuda para levantar, para ir ao banheiro, e até para comer já que meu braço não pode ser dobrado por conta do acesso à veia, instalado para o gotejamento do soro e os demais remédios
O dia amanhece e os passos dos enfermeiros e médicos aumentam por todo o recinto. Lençóis demoram a chegar por estarem em número reduzido. A saúde da cidade anda precária, e a verba parece que nunca chega. Doentes pelos corredores, falta de instrumentos de trabalho para médicos e enfermeiros, poucos médicos para operar, tudo ruindo ao nosso redor. Finalmente o médico do dia chega, bate na minha barriga, faz as mesmas perguntas de todos os dias e sai orgulhoso, passei tanto tempo aqui que esse médico se tornou um amigo, fazemos piadas e toques de mãos, vou me lembrar disso quando deixar este lugar. O carrinho de café da manhã aponta no fim do corredor, e logo me preparo para receber de bom grado o pouco de comida que é ofertado para os pacientes. Tem uma mulher do leito que fica a minha frente que sofre de diabetes e recebe o mesmo tipo de café da manhã que todos. Ela não recebe nenhum tipo de atenção dada a sua condição, e por isso, sofre com o aumento de glicose e passa mal. Tudo aqui é tão decadente, e não há o mínimo de respeito com a pessoa que está enferma.
Me preparo para minha caminhada matinal habitual, e vejo o senhorzinho que todos os dias faz o mesmo exercício que eu, sentado nas cadeiras perto da passarela. Ele está aqui há semanas e não tem previsão nenhuma de quando vai ser operado da vesícula. Estive pensando sobre como o tempo dentro do hospital parece ser a coisa mais importante, tirando a própria saúde. Quantos dias para sair, quando vai operar, a hora das refeições e remédios e o anseio pelo término do dia, para então começar tudo de novo, como sempre. Acho que as horas mais longas para mim são quando minha mãe vai para casa trocar de roupa e pegar umas coisas. São apenas duas horas, mas parece que são as horas mais solitárias e sofridas do dia. Me sinto tão sozinha, tento me distrair com palavras cruzadas, livros e músicas, mas tudo o que eu quero é sair daqui. Olho para a janela e escuto o som de carros, pessoas conversando e a cidade viva. Me sinto morta. Penso nas coisas que vou fazer quando estiver lá fora, e nas que vou deixar de fazer, mas tudo parece tão distante…

Giovanna de Souza
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


Acesse o site anterior.
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia