Olhos de Jabuticaba
Na galeria do meu celular encontrei um vestígio da minha divertida infância na fazenda: um pé de jabuticaba carregado de frutos verdes e maduros. Logo me recordo de não engolir seus caroços, como a maioria fazia. O balde com água fresca, usado para lavá-las, espelhava o brilho e a doçura que logo mais estariam na minha boca. Quando criança, eu subia no pé de jabuticaba para colher seus frutos e encontrava alguns bicados por pássaros que cantavam, provavelmente agradecidos pelo alimento.
É incrível como aquela jabuticabeira traz à minha memória, de adulta, pessoas queridas. Quando penso nela, lembro-me da minha amiga de infância; costumávamos vender aquelas jabuticabas na feira de domingo. Lembro-me também do meu avô, que sempre fazia aquele caminho no final da tarde após o banho, exalando o cheiro da sua colônia; do meu pai e da minha mãe e das mãos da minha avó paterna, que plantaram aquela jabuticabeira e deixaram uma doce recordação para filhos, netos e desconhecidos, mesmo após sua partida.
Desde que me lembro, aquela árvore sempre esteve ali: algumas vezes tomada por folhas verdes, outras com seus galhos descascando; ora carregada de frutos, ora sem nenhum deles. Épocas com jabuticabas graúdas, épocas com jabuticabas miúdas. Épocas doces e épocas azedas. E, até hoje, ela permanece lá. Isso me faz pensar em quantas pessoas já puderam saborear seus frutos — oferecidos como presente, vendidos na feira, compartilhados entre vizinhos.
Recordo também que, quando criança, muitas pessoas associavam meus olhos grandes e negros a uma jabuticaba, e eu achava uma ofensa. Hoje vejo como um elogio carinhoso, mesmo que não fosse, naquela época. Afinal, como são belas, e quanto maiores, mais doçura expressam. Será que minha querida avó chegou a imaginar que uma árvore plantada por ela se tornaria tema de uma crônica, décadas depois, escrita por sua neta que está se tornando jornalista?

