E no final, o tempo passou
Eu sempre desejei que o tempo passasse rápido. Lembro de querer completar logo os 10 anos, para que minha idade fosse formada por uma mão completa. Depois queria que chegasse logo os 15, para ter uma bela festa e finalmente “crescer” aos olhos da sociedade. E é claro, ansiava pelos 18 anos, pela promessa de liberdade, pela carteira de motorista, pela faculdade, pela vida adulta.
Na escola não era diferente, sempre odiei usar uniforme e fazer provas chatas de biologia. Queria que o tempo passasse, queria entrar logo no ensino médio e depois no último ano. Contava os dias para a formatura e para eu nunca mais precisar pisar naquela instituição. E então, o tempo passou e passou depressa.
Não percebi quando parei de assistir desenho e comer pão com Nescau nas manhãs de sábado. Também não sei quando parei de brincar no play do meu prédio e não me lembro da última vez que pulei em um pula-pula. Todo o mundo encantado da infância e o mundo confuso da adolescência sumiram e se tornaram o mundo rotineiro da vida adulta, sem eu me dar conta.
O primeiro beijo também passou. Às vezes, ele volta como uma lembrança rápida, um rosto borrado, um nervosismo sem necessidade e a sensação de ter vivido algo extraordinário, mas logo passa de novo. Depois dele, vieram outros beijos, histórias e pessoas.
Queria que o tempo só tivesse levado minha juventude. Mas o tempo é cruel e a presença de Vó Willma é a maior prova de que o tempo não para. Um dia ela estava ali, rindo pro vento e preparando comidas deliciosas, no outro dia, foi levada, pelo tal do tempo.
A falta que ela faz vai muito mais além da presença física. É a culpa de não lembrar de sua voz. É a vontade de abraçá-la pela última vez. É a força de não demonstrar estar mal perto de minha mãe. O pior é que o tempo não parou para eu sentir falta dela. O sol continuou nascendo e as obrigações continuaram existindo. Eu tinha pressa, muita pressa de crescer, tanta pressa que não percebi que eu tinha muito mais tempo que ela.
Hoje, continuo ansiando pelos próximos dias, pelas festas, pelas férias, para viajar até minha cidade natal e visitar todos aqueles que eu amo, mas percebi que o tempo não é exatamente uma conquista, também não é uma derrota. O tempo apenas é o tempo. A diferença é que agora eu sei que devo aproveitar o agora.

