A “minhoca” do quintal de vózinha
Eu morava em São Paulo-SP, cercada por prédios altos e barulhos que nunca cessavam. Mas todos os anos, quando as férias chegavam, meu coração já começava a bater diferente. Era hora de ir pra Poções, interior da Bahia, pra casa de vózinha. Assim mesmo, no diminutivo, porque amor grande sempre cabe num nome pequeno.
A casa dela era um refúgio. Tinha cheiro de café fresco e afeto espalhado por todos os cantos. O quintal, então, era o meu mundo encantado, enorme, cheio de flores e plantas. Ali eu criava histórias, falava com minhas bonecas e acreditava que tudo podia ganhar vida.
Era uma tarde calma e eu passeava com minha boneca pelo quintal, inventando que ela morava ali comigo. Foi quando vi algo estranho no chão: algo comprido, gosmento. Parei. Fiquei olhando, tentando entender o que era. Me agachei e observei cada pedacinho “daquilo”. E, de repente, na minha cabeça veio a lembrança das figuras do livro de Ciências, da escola. Tinha todas as características de uma minhoca! Fiquei um pouco enojada, confesso, mas medo eu não senti.
Corri até a sala, onde toda a família estava reunida, e contei sobre a suposta minhoca que tinha visto. Minha mãe, deitada no sofá, pediu para o meu primo ir verificar, já que ela morria de nojo desses bichos. Levei-o até o lugar onde eu tinha visto a tal minhoca. Ele olhou, ficou pálido e, num salto, gritou:
— Não é uma minhoca, é uma cobra!
A casa virou um alvoroço. Todos correram assustados, e eu, parada, sem entender o motivo do pânico. Na minha cabeça, cobras viviam na floresta, apareciam em livros e nos desenhos da televisão, não no quintal de vózinha. Fiquei observando, tentando compreender porque algo tão pequeno podia causar tanto medo.
Naquele dia, aprendi que nem sempre o perigo tem cara de perigo e que o mundo é cheio de descobertas escondidas nas coisas mais simples. Mas, mais do que isso, compreendi que as memórias da infância, como a daquela tarde no quintal de vózinha, são os tesouros de um tempo que agora carrego em mim.

