Quando o cabelo caiu, eu renasci
Era uma manhã comum no terminal de ônibus. Eu estava angustiada, atrasada para o trabalho e com o estresse estampado no rosto. E, justo naquele dia, o ônibus também atrasou. Quando chegou, veio lotado. Entrei, procurei um espaço e, por sorte, achei uma poltrona. Sentei e fiquei observando ao redor: rostos cansados, olhares perdidos, pessoas apressadas. Cada uma imersa em seus próprios problemas, e eu, idem.
Os dias se repetiam. Trabalho, casa, sono. Tudo igual. Até que um dia o corpo falou. Um desconforto que, a princípio, ignorei. Achei que fosse algo simples. Mas ele insistiu. E numa noite qualquer, enquanto tomava banho, senti algo diferente: um pequeno caroço no seio.
Fui fazer a biópsia rindo, certa de que estava tudo bem. Mas, ao ver a médica abrir o resultado, percebi o contrário. “Câncer de mama”, ela disse. Aos 28 anos, o mundo parou. “Fui em outro mundo e voltei”. Agora o medo fazia parte da rotina.
Seis meses de quimioterapia depois, o momento mais difícil foi raspar o cabelo. Eu sempre fui vaidosa e ver meus fios caírem era como perder um pedaço de mim. Fechei os olhos e deixei a máquina percorrer minha cabeça, cada mecha no chão parecia um símbolo da dor que eu sentia por dentro. Senti minhas lágrimas caírem. Mas, quando abri os olhos, vi algo novo: eu estava viva.
Raspar o cabelo deixou de ser um símbolo de perda e virou um ato de coragem. Eu me senti linda, não apesar do câncer, mas por causa da luta que travava. Hoje, cinco meses após o fim da quimioterapia, meus cabelos começaram a crescer. E decidi raspá-los novamente, não por tristeza, mas por reencontro. Vi no espelho a mulher que sempre fui.
O estereótipo da mulher com câncer está mudando. Aprendemos que a força não está em esconder as marcas, mas em assumi-las. O diagnóstico não é uma sentença de morte, é um chamado à vida. E a minha, eu decidi viver. Porque quando o cabelo caiu, eu renasci.

