crônicas

A primeira vez

A primeira vez é sempre interessante. Lembro com nitidez da noite em que dormi fora de casa, sem meus pais por perto. A escuridão parecia maior, o barulho do relógio na parede soava como um tambor no silêncio.
Não sei o que me incomodava mais: o sentimento de estar longe de casa e dos meus pais, ou os roncos altos da minha avó, quando caia em sono profundo.
Houve também a primeira vez em que pedalei sem rodinhas. Nas cinco primeiras pedaladas, minhas pernas tremiam; nas cinco seguintes, eu me sentia livre, como um pássaro descobrindo o céu. No final, o chão me abraçou com força — minha primeira queda, mas também meu primeiro voo.
As primeiras vezes têm esse poder: inauguram caminhos, deixam marcas. A primeira paixão, a primeira música que tocou diferente, a primeira viagem sozinha, o primeiro beijo desajeitado, a primeira receita que não deu certo, mas rendeu boas risadas.
Lembro da primeira vez que ganhei um livro de poesias. Li, reli, e logo comecei a escrever meus próprios versos. Nunca mais parei.
O mais bonito das primeiras vezes é que, às vezes, elas se repetem. Mas a magia está em não saber se haverá outra — e, mesmo assim, viver como se fosse sempre a primeira.

Mayane Carvalho
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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