crônicas

Sobre o nada

Nunca soube como terminar as coisas, e francamente, acredito que as coisas nunca souberam como terminar para mim. Vivo absorto em uma espiral de acontecimentos já acontecidos, ofuscado do tempo presente, e por consequência, dos acontecimentos que, de fato, acontecem. Confesso, às vezes, ainda me questionar se os “acontecimentos já acontecidos” são, de fato, acontecimentos. Ora, acontecimentos não são o que te factualmente acontece? E se minhas memórias, movidas por intenção, forem produto do meu imaginário? Não basta pensar estar rico para se comprar o mundo, então do que vale dizer que minhas interpretações dos acontecimentos são o suficiente para afirmar que aquilo realmente me aconteceu? E se nada tiver acontecido, o que irei escrever? Quem serei? Agora, enquanto escrevo, contento-me em ser o momento. Mas, e amanhã quando o momento já tiver passado, quem serei? Que garantia tenho de que terá um outro momento para eu ser, no dia seguinte? Os acontecimentos já acontecidos, turvos por minhas memórias? Bobagem. Já que não sei de nada do meu passado, não tenho como discernir o meu futuro. Estou atordoado pelo presente, que nunca termina, mesmo porque, quando penso nele, só consigo expressar seus “acontecimentos” pelo que já passou.
Por isso, acho a arte de se concluir algo um processo muito ingrato, já que se torna impossível para mim registrar algo que simplesmente não consigo compreender em completude. Talvez o problema não seja o presente, nem seus acontecimentos indescritíveis, e sim, minha própria soberba como aspirante cronista, já que por pensar demais em cotidianos que pudesse escrever, seja nos tempos de quando era garoto, nas frustrações que carrego comigo e por mim ou na mancha de café que derramei em minha mesa ontem e que covardemente tive preguiça de ir limpar, ofusco a real beleza de se encontrar e começar a narrar um acontecimento de verdade: um acontecimento gordo, roliço, grande! Um acontecimento daqueles que ainda está acontecendo, que já aconteceu antes e que todos sabem que vai acontecer de novo.
Mas que garantia eu tenho de que foi um acontecimento tão bem acontecido? Fui, há dias, em uma festa, encontrar amigos que não via há muito tempo. Trocamos risadas, suor, lágrimas, comemos bolo, falamos mal uns dos outros e ainda assim tivemos um ótimo momento. Em volta de mim, se escutava tudo que se pode esperar ouvir em uma festa ao mesmo tempo. Acho que a saudade que sentia me fez sentir como se aquele fosse o acontecimento mais acontecido de minha vida! Mas, enquanto cogitava se escreveria ou não a respeito, me desanimei. “O bolo nem era tão bom!”, pensei. “Não houve reviravoltas marcantes!”, refleti. “A camisa que estava usando era muito feia!”, constatei. Lembrei-me também da vez que beijei minha garota pela terceira vez. Como me esquecer daquela noite escura? Da rua de pedrinhas cintilantes? Da brisa suave, do gosto ácido, porém adocicado que senti correr a garganta logo antes de seu beijo? Da euforia tímida, quase neutra, que corroía meu peito. Porém, logo também me desanimei. “Muito sentimentalismo!”, afirmei. “sentimentalismo de menos!”, garanti. “Seria sequer sentimental?” Questionei, enquanto apagava os meus rascunhos e voltava para uma folha em branco, na qual não havia de ter concluído nada.
Francamente, como aspirante a cronista, sinto que não tenho cotidiano para contar. Sempre fui tímido demais, inseguro demais, questionador demais, e agora questionei tanto que nem sei ao menos o que de fato me aconteceu, ou pior, o que é acontecimento acontecido, acontecendo, ou que acontecerá. Queria escrever sobre o passado, me frustrei. Pensei em escrever sobre o futuro, e não encontrei nada. No fim, só me resta escrever sobre o presente, então, timidamente afirmo, aqui vai o melhor que tenho: eu escrevo sobre escrever. Escrevo sobre o porquê do que eu escrevo não ser tão bem escrito assim, escrevo como um pintor que pinta a si pintando um quadro já pintado, ou, em outras palavras, o suprassumo da falta de originalidade. Preencho uma lauda com o nada, exceto dúvidas que não saberei como responder e com cicatrizes de apagões e falhas que admito em uma expectativa quase que infantil de entreter um público provavelmente já cansado pela ausência de conteúdo em meus períodos. Agora, encaro através dos meus períodos com um olhar tão confuso quanto o de quem está tentando buscar sentido neles, e me frustro por lembrar que a rude mancha do café que derramei ainda está aqui. Nunca soube como terminar as coisas.

Pedro Leão
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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