crônicas

Quando o medo veio na sua mala

A vida é engraçada. Você não sabe o que lhe espera ao virar uma esquina, pois não temos como premeditar o que de fato acontecerá. Se pensarmos em um espetáculo teatral, veremos que, mesmo com ensaios, na hora do ato, tudo pode mudar. Se ela soubesse que a decisão de não morar com a avó fosse mudar sua vida e de suas meninas, provavelmente, não teria feito as escolhas que fizera. Ao incentivar a mudança delas da casa da avó para o sítio com um homem que se dizia maravilhoso, mal sabia que passaria por três anos de puro medo.

O medo é outra coisa engraçada. Certa vez, um amigo lhe dissera que o medo é produzido por uma parte do cérebro chamada de amígdala e que, se retirássemos essa parte, não sentiríamos medo. Esse era o desejo dela: parar de sentir. Quando se sente, pode-se colocar no lugar do outro e, assim, acaba por tomar dores que não lhe cabem ou que lhe cabem até demais.

Quando se trata do medo, alguns sentem de altura – esse que por bastante tempo considerou como o dela – alguns sentem por ratos, aranhas, cobras, e afins. Mas o que ela descobriu nesses últimos três anos, foi o medo que se tem de alguém. Esse de longe é um dos piores. Um respirar diferente ou um agir diferente, qualquer mínima coisa que incite sequer uma faísca de raiva nele, alimenta o medo dela, que se treme do dedinho do pé ao último fio do cabelo.

O começo da relação foi muito bom. O medo não se mostra logo de cara, ele chega aos poucos, revelando-se nas pequenas coisas. Vai pedindo desculpas pelos tropeços e empurrões, pelos pequenos episódios que podem ser tratados como normais. Até que um belo dia o homem que se fazia de simpático e carinhoso, bate. Humilha. Grita. Tudo feito com a mais perfeita naturalidade. Não há desculpas, mas ele trata como se o que mais existisse no mundo fossem desculpas, as mais banais possíveis. Foi assim que ele chegou.

Ah! E para os de fora? As pessoas que não residem com o medo? Ele é, na verdade, segurança. A mais bondosa alma, que cuida, alimenta e traz felicidade. Só veem a parte em que o medo se veste de bom marido e pai, bom homem e frequentador da igreja. E foi assim que o medo se instalou, trouxe seus pertences e ficou. Achando pouco, ainda ameaçou dizendo que, se saísse, levaria tudo de bom que ali estava, começando pelo bem-estar. O mesmo bem-estar que ela já não mais sentia, e pior, não queria sentir. O medo fez com que ela mudasse hábitos e desejos.

Seria bom dizer que o medo foi embora e que a deixou em paz; que ela está bem porque foi forte e foi porto seguro para as suas meninas; que a ferida que foi aberta se fechou; que o trauma está sendo trabalhado; que as coisas ruins que ele trouxe em sua mala foram embora com ele para nunca mais voltarem. Mas seria muita ingenuidade, algo que ela perdera há muito tempo. A esperança também se faz quase inexistente, pois o medo ainda dorme ao seu lado.

 

Aline Ribeiro
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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