crônicas

O esquecimento é um ladrão

Abigail Maria, é assim que ela se chama. Desde nova, sua alma me contagia. Quem por ali passou, guarda na memória a suavidade da sua risada e a simplicidade com que enxergava a vida. Para ela, o tempo nunca foi inimigo. Sempre existiu a urgente e preciosa vontade de viver. Nunca me poupou histórias da sua infância em Ilhéus, das viagens, do momento em que conquistou o Sr. Antonio Fernandes, então presidente do Instituto do Cacau, homem que eu, por triste ironia, jamais conheci. Foi por ela que a praia se tornou meu refúgio favorito. Seu passado me traz a saudade de algo que nem sequer cheguei a viver.

Na verdade, vivi um pouco, de certo modo. Lembro-me das viagens na infância, dos nossos natais em Salvador, quando a insistência dela ecoava. “Volte para o carnaval”, pedia ela. “Se seu pai não quiser lhe trazer, se enfie dentro do ônibus. A gente te busca na rodoviária”, ela dizia ignorando que eu era uma criança de seis anos. Naquela casa de três pessoas, um cachorro e uma gata, o final do ano ganhava dimensão própria com a chegada da família. Muitos nem mesmo se gostavam, mas sua energia nos juntava em um propósito.

Seu jeito é único, seu tempo, singular. Todas as vezes em que ela assumia o almoço, se tornava janta. Ligava a sua vitrola e girava-se dançando no meio da cozinha, fazendo o cheiro da comida encontrar o ritmo dos seus passos. Almoçávamos às cinco da tarde. Hoje, gostaria de repetir esse ritual, só para sentir esse desejo de viver pulsando em seu corpo outra vez. Sua idade não lhe pesava, saía pelo centro da cidade, sempre querendo resolver tudo sozinha. Se deixasse, pulava o carnaval inteiro. Embora firme em suas críticas, talvez seja a pessoa mais velha com a mente mais livre que já conheci. Já não me recordo o último Natal passado ali. O cachorro e a gata já se foram. Naquela casa, ainda habitam três pessoas. Difícil mesmo é deixá-la cheia de vida.

Abigail Maria, é assim que se chama a minha avó paterna. Os três naquela casa eram ela, minha tia e meu primo. Sr. Antonio é meu avô que partiu bem antes que eu chegasse ao mundo. Hoje, a diabetes roubou da minha avó quase todas as lembranças. Os remédios a fazem repousar quase o dia inteiro. A disposição se foi, o ânimo se escondeu. Já não pode mais comer o que ama. A voz da memória falha. Às vezes, se esforça para lembrar até mesmo o nome dos netos. Maldito esquecimento, ladrão cruel que roubou de nós uma parte dela.

Esse esquecimento nos levou parte da alma. Só restou o silêncio no lugar do riso. Só restou o amor que preenche esse vazio. Nesse amor, guardamos o que nunca poderá se perder. Filhos, sobrinhos e netos, que sentem saudades da Abigail Maria cheia de sede de viver. Cheia de memórias. Os Natais juntos se perderam no tempo. O carnaval já não tem o seu convite. Nela, existe ainda a inocência de que nada se perdeu. A crença de que tudo está como era um dia. A vontade de ser de novo quem já foi no passado. Privilégio é nosso de ainda tê-la.

Pedro Meireles
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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