A sensibilidade do olhar
Um dia desses, ao ir trabalhar, só pensava em tudo o que tinha pra fazer e em quanto estava cansada da rotina. Naquele ônibus, não reparei que haviam muitos outros além de mim, outros que também tinham suas próprias preocupações. Perdida em minhas angústias e aflições, mal vi o momento em que aquele menino, que aparentava ter no máximo uns dez anos, adentrou no ônibus. Vestia uma camiseta verde, bermuda jeans e um chinelo no pé, em um dia frio em que só se viam pessoas agasalhadas. Ele passava de passageiro em passageiro vendendo paçocas em um daqueles cestos de piquenique. Lembro-me que vasculhei minha bolsa em busca de algumas moedas, mas me frustrei ao perceber que não as tinha. Quando me alcançou, obriguei-me a levantar o olhar e dizer que não podia comprar pois estava sem dinheiro.
A pobre criança foi até o fim do ônibus, retornou e se sentou ao lado de uma velha senhora. Quando o garoto se acomodou ao seu lado, a senhora lhe entregou algumas moedas e disse a ele que era tudo o que tinha. Continuei a observá-los, ela perguntou para onde ele estava indo sozinho e se estudava, a resposta veio na ponta da língua, parecia animado em compartilhar do seu dia com alguém. Respondeu que estava indo trabalhar, mas que havia ido para a escola pela manhã. Eles permaneceram engajados em sua conversa, a senhora perguntava, o menino respondia, sempre com o mesmo ânimo de estar sendo notado. Me perguntei quantas outras vezes ele foi questionado por alguém sobre seus pequenos prazeres, falando sobre o que gostava, como brincava e qual era sua matéria favorita da escola.
A conversa se estendeu por um tempo, até que a senhora chegou ao seu destino e o menino se viu sozinho novamente. Peguei-me pensando se seus dias eram sempre assim solitários à espera de alguém que o enxergasse, que se preocupasse com sua escola, com sua ida sozinho a lugares movimentados, com seu futuro. Percebi que ele não queria somente vender suas paçocas, mas esperava que o olhassem, que tirassem dele um sorriso sincero e aliviassem, nem que fosse um pouco, sua solidão. Percebi a importância de um olhar sensível.

