O abraço que não chegou
Um lugar na mesa continua vazio, com a almofada em que ele costumava se sentar, como se esperasse por ele.
Outro dia, como resposta ao meu pedido, sonhei contigo no plano superior, bem e se tratando da fatídica doença
que te levou, tranquilo por saber que seus dias na Terra já haviam se concluído. Quando acordei desse sonho, o
mais real que já tive, ainda era possível te sentir perto de mim, como se nunca tivesse partido. Sua falta ainda é
muito presente nos nossos dias, me sentia mais segura em tê-lo por perto, sabendo que estaria amparada sempre
que precisasse.
Mas o tempo, esse mestre silencioso, me ensinou que o amor não termina quando a presença se vai. Ele muda
de forma. Deixa de ser toque e passa a ser lembrança, deixa de ser voz e passa a ser intuição. Às vezes, quando
o vento passa leve pela casa ou quando a música preferida toca sem aviso, é como se você dissesse: “estou
aqui”.
Com o tempo, aprendi que o verdadeiro abraço não é o que envolve os braços, mas o que envolve a alma. E é
esse que ainda me acolhe toda vez que a saudade resolve sentar na cadeira ao meu lado.
Às vezes, ainda preparo o café como se fosse servi-lo.
O silêncio da casa carrega o som da sua risada, e até o relógio parece esperar seu bom dia. Mas, foi nas
pequenas coisas que aprendi a te reencontrar: na música que toca de repente, no vento que atravessa a janela, no
pensamento que chega quando mais preciso.
Descobri que a saudade, quando iluminada pela fé, se transforma em presença.
E hoje, mesmo sem o abraço que não chegou, me sinto abraçada todas as vezes que lembro de você com
gratidão.
A vida seguiu, mas carrego comigo tudo o que aprendi com o teu amor — o jeito calmo de olhar a vida, a
importância de estar presente, o valor das pequenas alegrias. E quando o coração aperta, eu apenas fecho os
olhos e deixo que a lembrança te traga de volta, porque sei que, de algum modo, você nunca deixou de estar
aqui.

