Cetim e chamas
De que adianta tanto cetim se o fogo queima incessantemente? As camélias enfeitam a atmosfera recém-criada, enquanto o luar redireciona sua resplandecência pela janela. Prazeres individualistas percorrem cada momento de lascívia. Olhamos, mas olhares não se cruzam, afinal, olhares não são bem-quistos neste quarto. O toque é frígido, distante, nunca passional.
Sinto que as amarras sufocam, as correntes gritam na solidão. E me vejo escrava da luxúria, carente do corpo, na busca desesperada de proporcionar volúpia em cada segundo, transbordando sensualidade com qualquer tom de vermelho que eu encontre.
Pouco antes dos acontecimentos, sentados em um sofá de couro preto e iluminados por uma meia luz vagabunda, seus olhares castanhos ardiam com a fumaça do cigarro que dominava a sala em um entardecer qualquer. Nossas intenções se tornavam claras, e talvez dependessem de um diálogo conveniente, mas o inesperado se tornava muito mais convidativo.
A degustação do vinho fazia sua pele âmbar colorir a íris de meus olhos, trazendo à tona sentimentos influenciados pelo seu querer incerto, no qual o meu maior almejo fosse que vislumbrasse além do ideal que me cercava e enxergasse, enfim, a mulher que eu era.
Era um poder tão vulgar que se camuflava entre toques e elogios cativos, e nos despertava para nosso íntimo secreto, que discretamente comemorávamos sem lembrar dos nossos condicionamentos errantes. Os lugares estavam marcados, as intimidades já deixavam cada taça compartilhada, e entre beijos que dançavam sem culpa, ele era meu único convidado, exaltado.
E enquanto seus dedos trêmulos lutavam para se livrarem de meu sutiã, sua respiração quente de vinho vibrava ao som de sua voz e me embriagava com seu cheiro. Lá estava eu, pronta para me dividir, para não me pertencer, e em meu pensamento apenas ecoava: “Oh, Deus, perdoe-me! Perdoe esta madalena incorrigível!”

