A inclusão (ou não) da diversidade LGBT no espaço universitário
por: Fernanda Amorim, Lavínia Marinho, Luísa Pereira e Rafaela Dias

De acordo com dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), o Brasil é o país que mais mata pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ no mundo. Segundo o Observatório de 2024, publicado pelo grupo no início de 2025, foram registradas 291 mortes violentas, um aumento de 8,83% em relação ao ano anterior. A violência enfrentada por pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil é estrutural, refletindo, inevitavelmente, ambientes institucionais como as universidades.
Por isso, o professor Marcus Assis Lima (62), do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e do curso de Pós-graduação em Letras: Cultura, Educação e Linguagem, também da Uesb, criou o Laboratório de Linguagem e Diversidade Sexual (LALIDIS), um programa de extensão voltado para os estudantes e para a comunidade LGBTQIAPN+ em geral. Nesta entrevista, o professor explica como tem trabalhado para acolher esse público no espaço acadêmico.
EXTRA!Ordinário: Professor Marcus, o que lhe motivou a dar início ao LALIDIS e de que forma isso foi feito?
Marcus Assis Lima: As minhas pesquisas. Chegou um momento em que eu pensei, “bom, eu já tenho um conhecimento acumulado e agora preciso levar isso pra fora, transformar em algo pra comunidade externa” “[a Universidade]”. Estava na hora de fazer um projeto de extensão para que esse conhecimento que eu tenho pudesse servir pra alguma coisa na comunidade “[de Vitória da Conquista-BA]”. Foi daí que nasceu o LALIDIS. Queria criar um projeto de extensão para isso, oferecer cursos e trazer pra Universidade, principalmente, a população travesti, transexual, etc.
EXTRA!Ordinário: Para o senhor, qual a importância desse tipo de projeto nas universidades?
Marcus Assis Lima: Ah, é importantíssimo. Bom, eu sou um homem gay, todo mundo sabe, sempre estive fora do armário. Mas, por exemplo, quando eu fui fazer meu mestrado, um projeto sobre uma revista gay, foi um alvoroço na universidade “[que estudei]”. Eu sempre percebi, na minha trajetória acadêmica, que, embora as pessoas me aceitem, por trás sempre tem uns risinhos. É claro que eu sofro bem menos preconceito porque eu sou branco, homem, de classe média, isso eu tenho certeza. Mas, na minha trajetória toda, mesmo quando eu vim pra UESB, sempre foi uma coisa que eu tive interesse, a Universidade precisa abrir espaço e acolher essas pessoas. E acolher não é só ter a cota pra ela entrar, porque depois que ela entra… Joga ela aqui dentro e ela que se vire. Acho que a Universidade ainda não tem esse tipo de acolhimento.
EXTRA!Ordinário: Qual o maior desafio ou retaliações que enfrentou quando deu início ao projeto?
Marcus Assis Lima: Ah, o maior desafio foi a falta de verba, né? Falta de auxílio financeiro, porque para fazer essas coisas eu preciso de dinheiro. Eu queria trazer no começo, por exemplo, transexuais e travestis para a Universidade. Mas como que eu vou trazer essas pessoas? Quem vai pagar o ônibus delas para sair lá da onde elas moram para vir para a Universidade? Como é que elas vão comer? Isso a Universidade não me dá.
Isso aliado ao fato de que, até mesmo as próprias pessoas da comunidade “[LGBTQIAPN+]” têm resistência com isso. A própria comunidade não me procura. O espaço tá aberto, eu estou aqui. Eu não posso sair catando laço, né? Falar: “’” Vem cá viado, vem sua sapa“’”. Não posso fazer isso. Eu já convidei milhares de pessoas, pergunto “‘“Você não quer contribuir com o site, escrever? Você pode escrever o que você quiser”’”. E fica por isso mesmo. Teve gente que já me perguntou o que ganharia com isso, eu falei: “‘“‘Um espaço acadêmico para você se manifestar”’”. É o que eu posso dar, mas a própria comunidade não quer se envolver. E na época da pandemia, com o Bolsonaro, por exemplo, “[o projeto]” enfrentou muitas “[retaliações]”. Não só o projeto, mas eu também, com ameaças, essas coisas. Tem essas pessoas, né? Que são contra.
EXTRA!Ordinário: Você poderia detalhar quais são os principais focos ou projetos que o LALIDIS está trabalhando atualmente ou já trabalhou?
Marcus Assis Lima: Ixe, a gente já fez tanta coisa. O LALIDIS deu uma inclinada, mas continua lá o site. De vez em quando a gente atualiza, mas eu tô sem ninguém para fazer isso. Mas já fizemos muita coisa, eu sempre dou esses nomes engraçadinhos, tá? Então, por exemplo, tinha o “Sextou da Balbúrdia”, que eram aulas abertas sobre temáticas de gênero e sexualidade, que eram sempre na sexta-feira. A gente tinha um um talk show, que chamava “QueerVersando no Lalids”, brincando queer com conversando, eram entrevistas com pessoas LGBT para conversar, e tal. E, o que mais… O próprio site.
EXTRA!Ordinário: Qual o impacto que o LALIDIS espera gerar ao permitir que essas vozes ocupem e transformem o espaço acadêmico?
Marcus Assis Lima: A ideia é tentar diminuir um pouco o preconceito. Poder mostrar que nós somos pessoas normais. A gente come, caga, peida, do mesmo jeito. Só tem uma coisa de diferente, que é que eu gosto de uma pessoa que não é o que a sociedade acha que é o que eu devo gostar. E, também, de alguma forma, fazer com que a universidade fale sobre isso. Dar visibilidade para essa temática. De uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, as cotas para trans aí na universidade, é um reflexo de que eu botei a boca no trombone. Falei: “Ó, existe LGBT na universidade”. De alguma forma, nos meus sonhos, né? Eu penso que, pelo menos, chamei a atenção para isso e eles resolveram fazer políticas.
EXTRA!Ordinário: Como você imagina o LALIDIS daqui a 5 anos?
Marcus Assis Lima: Eu espero que, daqui a 5 anos, eu tenha um espaço físico. Eu tenho um grande acervo de livros, de revistas, de filmes e etc que eu gostaria de colocar nesse espaço de convivência. A ideia é essa: o LALIDIS ser um espaço de convivência para a comunidade LGBTQIAPN+

