EMPODERAMENTO FEMININO NA POLÍTICA
por: Fabiana Silva, Joas Cardoso e Luanna Reis

No Brasil e no mundo, a desigualdade de gênero persiste como um problema estrutural grave. Apesar das consequências dessa falta de representatividade feminina, que gera diversas formas de violências cotidianas, as mulheres nunca deixaram de lutar por seus direitos. Por exemplo, os novos dados da União Interparlamentar (UIP) e da ONU Mulheres revelam que o Brasil ocupa a 133° posição no ranking global de representação parlamentar de mulheres.
Dentro dessa pauta, Gabriela Garrido, nascida em Salvador e atual vereadora pelo partido Partido Verde (PV) de Vitória da Conquista-Ba, formada em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), destaca-se por sua trajetória. Já atuou em diversas cidades da região e chegou a assumir a titularidade da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM).
EXTRA!Ordinário: Quando surgiu o desejo de se tornar vereadora?
Gabriela Garrido: Não houve um momento específico, as coisas foram acontecendo. Ao perceber o interesse da população pela minha vida e receber convites de vários partidos, percebi que poderia transformar meu trabalho social em política pública. O cargo de vereadora, apesar das limitações, ainda é um campo que você consegue fazer de forma mais contundente um trabalho social.
EXTRA!Ordinário: Quais habilidades são necessárias para que uma mulher vença as dificuldades e alcance sua independência?
Gabriela Garrido: Ainda é muito difícil para a mulher em todas as áreas. Eu acho que a forma que definiria mais corretamente é você conseguir trilhar o caminho que você se autodeterminou com disciplina e obstinação. Desde cedo, ensino aos meus filhos que ‘disciplina é liberdade’ e que adulto faz o que precisa, não apenas o que gosta. O ideal é que a gente tivesse um mundo onde todas as mulheres fossem respeitadas. Infelizmente, ainda é necessário lutar para conquistar espaço, por isso a obstinação é fundamental.
EXTRA!Ordinário: Quem te inspira ou influencia ?
Gabriela Garrido: Admiro várias mulheres, como Erika Hilton, Luiza Erundina, Manuela D’Ávila, Irmã Dulce e Carolina Maria de Jesus. Eu gosto de pessoas que não são tão extremistas, mas que são bem articuladas. A inteligência é uma característica que eu admiro em qualquer pessoa e alguns homens me inspiram também. Porque existem homens que são absolutamente incríveis e geniais.
EXTRA!Ordinário: Levando em consideração o projeto de Lei nº 132, que propõe conceder prioridade às mulheres em situação de vulnerabilidade nos programas de habitação municipial, quais possíveis propostas futuras?
Gabriela Garrido: Tanto eu, como o meu gabinete todo, pesquisamos políticas públicas bem-sucedidas em outros municípios para adaptar à nossa realidade. Queremos implementar a Casa da Mulher Brasileira, concentrando os serviços num lugar só. Limitados pelo fato de vereadores não poderem propor projetos que gerem despesas a mais, a gente tem que usar de uma criatividade para conseguir atingir as nossas pautas sem fugir disso. Por isso que eu tenho caminhado bastante pela cidade para poder entender o que as pessoas precisam e o que elas desejam, dialogar com elas, conversando com as mais diversas pessoas, incentivamos a participação popular através da Comissão de Legislação Participativa, da qual sou presidente.
EXTRA!Ordinário: A desigualdade entre homens e mulheres te afeta ou te impulsiona?
Gabriela Garrido: Me impulsiona. Quando a gente não concorda com a realidade é que a gente tem que trabalhar para mudar. A omissão é uma escolha política também. Eu sou contra qualquer tipo de extremismo, então, eu dialogo com qualquer pessoa, sem problema nenhum e se for bom [uma ideia], a pessoa pode contar comigo.
EXTRA!Ordinário: O que ainda é necessário para alcançarmos a igualdade de gênero?
Gabriela Garrido: Muita coisa, mas assim, a gente precisa começar, na verdade, um programa educacional sério voltado para essa pauta e em outras pautas. Eu, inclusive, tenho um trabalho que eu já desenvolvo com o Instituto Tear, que é voltado para crianças de 5 a 8 anos, eu estou elaborando uma cartilha para adolescentes também, está quase pronta. Eu escrevi um livrinho e ele vai ser lançado em março pela editora da ALBA.
EXTRA!Ordinário: É possível conciliar carreira e vida pessoal?
Gabriela Garrido: Sim, na minha visão é a melhor possível. Tenho dois filhos, sou casada há mais de 20 anos e acredito, eu acho, que essas coisas conversam. É fácil? Não é. Nenhum casamento é. O meu conselho para quem deseja conciliar um relacionamento com a vida profissional é que escolha a pessoa menos egoísta possível, porque assim é possível uma família, porque precisa de muita dedicação.
EXTRA!Ordinário: Como foi sua entrada na Câmara, considerando a cassação do outro vereador Natan da Carroceria?
Gabriela Garrido: Pela lei, é exigido compor uma chapa de 30% de um gênero, e de 70% de outro, o que não significa que é 30% de mulher, se entende que é 30% de mulheres, mas a lei não diz isso. O que é que acontece? Muitas vezes para registrar a agenda [de candidaturas], essas pessoas se utilizam de candidatas laranjas, mulheres geralmente, às vezes a mulher nem sabe. Quando isso acontece, se anula tudo, é como se esse partido não tivesse existido na eleição. Então o que é que se faz? Uma retotalização dos votos, uma recontagem e aí eu entrei como vereadora eleita e não como vereadora suplente. Eu inclusive fui em todas as rádios esclarecer, porque as pessoas não entendiam e infelizmente, o colega, por desconhecimento ou por má fé, não sei porquê nem conheço ele pessoalmente, ia dizer que eu tomei o lugar dele, que eu estava tentando entrar no ‘tapetão’. Isso não existe, nós temos decisões judiciais reiteradas, foram várias decisões, não foi nem só do juiz daqui [de Vitória da Conquista].

