Dignidade das pessoas transgênero
por: Igor Santos, Rebecca Di Pardi e Pedro Leão

Ao longo de 16 anos, o Brasil lidera o ranking de países que mais matam pessoas LGBTQIAPN+, sendo a maioria delas, pessoas transgênero. Segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foram 122 mortes registradas em 2024. Na Bahia, foram 8 casos só no ano, mas independente da quantidade, é inaceitável para a comunidade. Porém, ainda há Organizações Não Governamentais (ONGs) que acolhem essas pessoas, sendo uma delas, a Associação Renascer, que fica em Vitória da Conquista, e tem como representante da diretoria, Maria Aparecida Agostinha. A Casa Renascer é um espaço seguro e de referência para a comunidade trans e pessoas portadoras do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) da cidade.
EXTRA!Ordinário: Qual sua percepção sobre a importância em existir um espaço como a Casa Renascer, principalmente para a comunidade de mulheres trans e travestis?
Maria Aparecida Agostinha: É de muito importância porque assim, eu vejo como é o dia a dia delas. É muita discriminação! Acolhemos todas as pessoas da comunidade. E a gente vê a tristeza de muitas vezes, não serem incluídos na sociedade. E por aqui, eu tenho muita intimidade com “meus meninos”! Chamo de “viadinho”, “sapatona”. Eu chamo assim, eles têm um relacionamento muito aberto comigo! E aí, muitas das vezes, eles passam por situações de discriminação. Há algumas travestis, que são portadoras do vírus HIV, outras com pouco acesso econômico, que não têm o que comer. Outras que a mãe exclui da família. E aí, nós acolhemos aqui, eu abraço! Grande maioria são pessoas negras que sofrem outra discriminação. E fazemos esse acolhimento, pela falta de oportunidade que essas pessoas carecem. Eu sou soropositiva a 25 anos, e quando eu descobri que eu sou soropositiva, eu fiquei muito assim, querendo saber de tudo. Fui pra internet e me informei sobre muitas coisas referente a minha condição. Tanto que, naquela época a secretaria de saúde, havia uma ONG, o Programa de Educação para a Vida (PEV) que era da Drª Monaliza Barros, que é psicóloga, que cuidava dessa ONG e acolhia. E aí, eu senti a necessidade de não deixar o projeto acabar! Mas acabou resultando pelo fim do projeto. Logo depois, juntamos uma equipe de advogados, infectologistas, bioquímicos e usuários do serviço, pois a gente não podia ficar sem esse local, pois tem muita gente de fora, de outras cidades, e região que a gente acolhia e eu percebi que o projeto poderia acabar, que muitas pessoas ficaram sem os atendimentos da PEV. E eu senti muita necessidade de não deixar esse projeto morrer. Nós começamos e fizemos todas as documentações, estatuto, regime interno, CNPJ, do Conselho Municipal de Saúde de Vitória da Conquista, no conselho de assistencialismo e no desenvolvimento social, e fizemos as inscrições de muitas pessoas LGBTs e outras que passavam pela Casa! E aí, nós estamos no aguardo desses cadastros que fizemos! Porque, muitas das vezes, elas (travestis) moram em prostíbulos, tem que pagar, há taxas. Muitas vezes eu as vejo pelas ruas, “fazendo a vida”.
EXTRA!Ordinário: Já enfrentou preconceito ou resistência por atender majoritariamente pessoas da comunidade trans? Se sim, como lidou com isso?
Maria Aparecida Agostinha: Sim, quase todos os dias. Uma pessoa mesmo falou assim para mim: “A casa tá cheia de viado, né”. E eu falei: ” Sim, está cheio! Mas ainda há muito viado solto por aí dentro do armário”. Falei pra ele, né, porque quando a pessoa chega a falar isso, porque ele tá escondido ainda. Não tem coragem de mostrar a cara. Mas eu fiquei muito triste, não imaginava isso da pessoa. Mas eu não ligo, sempre faço meu trabalho!
EXTRA!Ordinário: Existe alguma memória marcante que você gostaria de compartilhar?
Maria Aparecida Agostinha: Sim, envolvendo um problema de saúde. Chegou um paciente aqui que ele adquiriu HIV, através de seu parceiro, só que o parceiro dele tinha escondido a situação. Quando ele descobriu, ele já estava doente da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) mesmo! E quando chegou aqui na casa, ele não conseguia nem andar. Nessa época, a gente acolhia pra pessoa ficar aqui na casa, hoje não fazemos pois, infelizmente é muita despesa. E arranjamos um chinelinho para ele, ele estava muito doente mesmo, muito magro e sempre falava com medo que tinha certeza que iria morrer. Mas com sorte, ele está muito bem atualmente, se recuperou. Hoje em dia, ele é um dos nossos voluntários. E eu vejo muito o carinho dele, é muito gratificante! E hoje ele é aposentado. Aposentou em razão da sua condição de saúde.
EXTRA!Ordinário: Você já tinha ligação com a comunidade trans antes de abrir o espaço?
Maria Aparecida Agostinha: Então… eu comecei a ajudar pessoas LGBTs e também pessoas que vivem com HIV e AIDS porque eu entendo, sabe? Eu entendo a carência que muitas delas têm. Falta afeto, falta oportunidade… e eu senti que podia fazer alguma coisa pra mudar isso. Aí eu decidi oferecer cursos na área da beleza, pra que elas pudessem aprender uma profissão e ter uma renda. A gente vê a situação deles, a necessidade de trabalho, mas eu também tive que adaptar os horários, porque muitas dessas pessoas se prostituem pra sobreviver, e a tarde é o único momento que elas têm livre. Então, pensei: se é o horário que elas podem, é o horário que eu vou fazer. E sim, junto com os cursos, eles têm o dinheiro da passagem de ônibus, né? Se eles assistirem 16 aulas em dois meses, eles têm R$ 100,00, e no final do curso, tem um sorteio de R$ 1000,00, e um kit, da oficina pra eles quando aprenderem, terem uma alternativa além da prostituição.
EXTRA!Ordinário: E você faz esse trabalho de acolher desde quando?
Maria Aparecida Agostinha: Desde de quando eu adquiri o vírus. Em 2000, eu descobri que eu tive HIV! E aí, nós fundamos a casa em 25/01/2002. Depois nessa época, a secretaria de saúde redirecionava a gente para congressos e aí eu fiquei representante do vírus HIV aqui de Conquista, eu fiz 4 conexões de avião, o primeiro congresso que nós fizemos foi na Paraíba, conheci muitas pessoas de vários países. Mas estamos caminhando, Deus cuida da gente! Tem vez que não temos nada, a prefeitura não disponibiliza uma ajuda, tudo o que temos é de doação.
EXTRA!Ordinário: Que mensagem você deixaria para quem nunca entrou em contato com iniciativas como a sua?
Maria Aparecida Agostinha: Eu falo que quem precisar ser acolhido, ser abraçado. A gente abraça a causa da pessoa. E procure a gente aqui na Rua Sinhazinha Santos, número 347, Centro de Vitória da Conquista. Ou pelo Instagram – @casarenascer.vca, onde você pode saber como doar para a nossa Casa. Sou representante da diretoria aqui da Renascer. Fui presidente 8 vezes. Hoje é meu esposo que é o presidente, pois é difícil achar pessoas que queiram assumir a Casa.
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