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O apagamento da dor e a espetacularização do crime

A violência nas periferias brasileiras tem rosto, nome e endereço. Ela está no olhar apreensivo de quem volta tarde do trabalho, no som das sirenes que cortam a noite, nas mães que esperam os filhos com o coração apertado. É uma rotina marcada pelo medo e pela resistência, na qual sobreviver já é um gesto de coragem. Nessas regiões, distantes dos centros e das prioridades do poder público, a desigualdade se faz presente em cada esquina. Faltam oportunidades, serviços básicos, transporte digno, escolas estruturadas. O que sobra é a sensação de abandono e a necessidade de se proteger todos os dias.
Em lugares como o Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, a violência se tornou parte do cotidiano. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, o bairro lidera o número de roubos na capital, com mais de 2,6 mil roubos apenas em 2025. Por trás das estatísticas, há histórias de vida que raramente chegam aos jornais. São trabalhadores que acordam antes do sol, jovens que sonham em mudar a própria realidade, famílias que constroem suas casas tijolo por tijolo, enfrentando medos que nunca deveriam fazer parte de suas rotinas.
No entanto, quando a mídia retrata a periferia, quase sempre é pela lente da tragédia. As manchetes estampam crimes, prisões e mortes. As câmeras chegam depois do sangue no chão, e o noticiário vai embora antes de ouvir quem ficou. A dor vira espetáculo, e a violência é tratada como se fosse algo natural. Pouco se fala sobre o que está por trás: a ausência do Estado, a falta de oportunidades, o racismo estrutural, a negligência histórica. A cobertura rasa transforma pessoas em estatísticas e territórios em sinônimos de perigo.
O jornalismo policial brasileiro se consolidou ao transformar o sofrimento em produto, usando de uma lógica sensacionalista que privilegia aquilo que choca e prende o público. Segundo o artigo científico “Mídia, periferia e legitimação da violência policial: análise dos casos da Chacina da Penha e Assassinato da PRF, pelos jornais Alerta Nacional e Brasil Urgente”, a cobertura utilizada por estes programas se estrutura como uma espécie de dramaturgia cotidiana, com vilões, mocinhos, perseguições, revelações e desfechos. Esse tipo de construção narrativa apaga a complexidade do cotidiano periférico e reforça estereótipos de criminalidade que recaem sobre os mesmos corpos: jovens, negros, pobre e moradores de regiões marginalizadas.
O artigo “O papel da mídia na rotulação e estigmatização de criminosos: impactos sobre os direitos fundamentais e desafios para o direito processual penal” complementa. A construção de estereótipos, segundo o estudo, funciona como um mecanismo de controle social. Ao retratar a periferia como um espaço de violência constante, a mídia legitima políticas punitivas e reforça a ideia de que a solução advém de mais repressão, nunca por direitos.
Devido a isso, histórias de luta que nascem nesses lugares são silenciadas. São muitas as iniciativas que resistem à violência: grupos culturais, projetos sociais, mulheres que se unem para cuidar umas das outras, jovens que transformam becos em espaços de arte. Essas vozes existem, mas raramente encontram espaço para serem ouvidas.
Há mais vida do que violência nas periferias. O jornalismo precisa olhar para essas pessoas como cidadãos que enfrentam diariamente as consequências da desigualdade. Romper o silêncio é um ato de justiça. É reconhecer que a violência não é destino, mas resultado de escolhas políticas e sociais. Contar essas histórias com empatia é o primeiro passo para transformar o que parece impossível numa mudança real.

Luísa Pereira
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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